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Virgilio Leite Uchôa: ELEMENTOS PARA REFLETIR A CONJUNTURA
Geraldo Gerem: Como viver hoje o carisma do Irmão Carlos
Edson Damian: VIVER O CARISMA DE CARLOS DE FOUCAULD HOJE
Edson Damian: DESERTO – LUGAR DO ENCONTRO COM DEUS
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Saudamos todos os irmãos da Fraternidade Sacerdotal Jesus+Caritas. Somos 34 delegados de 22 países para a IX Assembléia Internacional, em São Paulo, Brasil, nos dias 07 a 22 de novembro de 2006, com o tema: “Re-inventar o testemunho do Irmão Carlos, com a força do Espírito, em nossas culturas e Igrejas”.
Longe do barulho da cidade, estamos saboreando a tranqüilidade e o ambiente agradável dos “verdes prados” do Centro Pastoral Santa Fé. Estamos bebendo do poço de nossas experiências de irmãos em Jesus de Nazaré, do testemunho do bem-aventurado irmão Carlos e da pluralidade das nossas experiências de Igreja, de culturas e de nacionalidades.
Temos muito a aprender da experiência dos outros, de suas apresentações e intervenções. A partir de uma atitude de abertura, atentos aos relatórios e aos testemunhos de nossos irmãos, nos sentimos interpelados a nos interrogar e a rever nossa própria vida, nosso ministério de presbíteros, diante das dificuldades e esperanças de nosso povo.
Vivemos a fraternidade nos moldes já conhecidos: adoração diária e celebração da eucaristia, dia de deserto, partilha da palavra de Deus lida nas escrituras, na história e na experiência de cada um. As diferenças de língua, raça, cultura e idade constituem motivação para maior conhecimento, admiração e respeito aos outros.
O Brasil abriu seu coração para nós e nos ajudou a abrir, também nós, os nossos corações e a nossa mente e - com a ajuda de um pouco de samba – a mover nossos corpos. A acolhida e a hospitalidade aqui foram extraordinárias. A fraternidade sacerdotal do Brasil e a equipe de apoio têm nos acompanhado de maneira constante e incansável. As paróquias e as comunidades que visitamos no fim de semana, com as quais partilhamos a vida, nos permitiram experimentar vida em abundância e generosidade. As celebrações da fé são todas alegres, exuberantes e ao mesmo tempo, humildes expressão de uma fé libertadora e espontânea.
O Brasil, toda a América Latina e o Caribe estão atentos ao “Grito dos Pobres”, que clamam por solidariedade para questionar e ajudar a mudar as instituições econômicas, políticas e religiosas que oprimem e desfiguram a terra e o rosto dos filhos e filhas de Deus. Este testemunho de nossos irmãos e irmãs, que lutam para estar presentes e caminhar com suas comunidades eclesiais é tão firme como o FIAT de Maria de Nazaré, Nossa Senhora de Aparecida.
Tivemos o privilégio de conhecer alguns testemunhos da Igreja que nos chamam a viver o Evangelho e a estar do lado dos pobres. Ouvimos de teólogos latino-americanos, de sacerdotes diocesanos e missionários de origem estrangeira bem como das Irmãzinhas de Jesus a resposta da Igreja ao evangelho, que convida a uma vida fraterna com todos os que o mundo considera últimos, de quem temos muito que aprender.
A Europa e a América do Norte gozam de prosperidade material, ao mesmo tempo em que presenciam o crescimento do relativismo e do pluralismo. Diminuem os membros das Congregações, aumenta a idade média do clero, é escasso o número de vocações e escândalos humilhantes lançam sombras e preocupam. Mesmo assim, em muitos lugares, grupos de jovens e adultos buscam a transcendência. O desafio do diálogo com os imigrantes é um forte chamado do Bom Samaritano, hoje, para oferecer apoio e hospitalidade. Como aconteceu com Ir. Carlos, temos muito a aprender do encontro com o Islã, que agora clama às nossas portas.
Percebemos em nossos países um grande desejo de relacionamento, de amizade, e de verdadeira fraternidade, porém isto coincide com uma grande tragédia: a pobreza e exclusão material de milhões de pessoas em muitas partes do mundo, acompanhadas, em outras, por um profundo empobrecimento espiritual. Tudo isso prejudica as verdadeiras relações humanas, a abertura e a dignidade. O desejo de ser reconhecido e amado, tão freqüentemente insatisfeito, se reflete no aumento da violência, do aborto, do suicídio e de outras formas de desvios de comportamento. Enquanto isso, os pobres e fracos são empurrados para a marginalidade como acontece tanto aqui no Brasil. Alguns são forçados a viver em condições subumanas, o que torna suas vidas insuportáveis.
A influência dos migrantes afeta, atualmente, a maioria dos nossos países. As relações autênticas e a fraternidade são precárias devido à mútua desconfiança. A expansão do Islã em muitos dos nossos países é percebida como um desafio para as religiões estabelecidas. O diálogo em busca de uma mútua compreensão se torna uma tarefa indispensável. Em muitos dos nossos países a população católica está envelhecendo e declinando em número. As Igrejas pentecostais crescem com seu espírito criativo e nos convidam a uma colaboração ecumênica. Algo do espírito do Concílio Vaticano II foi sufocado. Terá sido por causa do medo de um futuro incerto e da falta de fé na presença do Espírito Santo? Ao mesmo tempo, os encargos dos padres aumentaram excessivamente. Estamos assumindo a tarefa messiânica de dar nossa contribuição para resolver os problemas do mundo ou, ao contrário, estamos nos transformando em “sacerdotes da sacristia”, sobrecarregados pelo trabalho e desiludidos?
Nossa vida na Fraternidade Sacerdotal é como a experiência dos discípulos no caminho de Emaús. Precisamos partilhar as nossas dificuldades para sentirmos arder o nosso coração. É o que temos experimentado aqui em São Paulo. Jesus de Nazaré, o Deus que armou sua tenda no meio do seu povo, que se ofereceu a si mesmo, até a morte, e ressuscitou, caminha ocultamente conosco dando-nos seu conforto. Ir. Carlos foi seduzido por este Deus, a quem havia abandonado em sua juventude e que reencontrou como amigo. Sua busca de ocupar o último lugar revela-nos um Deus misericordioso que se inclina para amar e reunir todas as suas criaturas.
No silêncio da adoração e na fração do pão na Eucaristia encontramos a vida que brota do imenso amor e da fraternidade de Deus, o Absoluto. É aqui que descobrimos todos os nossos irmãos e irmãs como os amados de Deus.
Nossa experiência de vida na fraternidade nos tem conduzido à confiança e ao apoio mútuo. Mas além das encruzilhadas e contradições que há dentro de nós mesmos e no mundo ao nosso redor, somos convidados e desafiados a seguir o caminho menos conhecido, o de Jesus de Nazaré, o do Irmão Carlos, o caminho do pobre. Nesta assembléia somos chamados a viver a fraternidade, a ser irmãos, a caminhar com os abatidos e feridos, com os quebrados e traídos pelas falsas promessas de riqueza e poder. Nós precisamos estar presentes no meio deles, que, embora sofram muitas privações, mantêm viva a esperança de salvação em meio ao cotidiano da vida.
No ano de 2007, os bispos da América Latina e do Caribe se reunirão em Aparecida, no Brasil, para reviver e reavivar o espírito do Concílio Vaticano II e das Conferências anteriores de Medellín e de Puebla. Nós nos unimos a eles neste caminho de esperança por um novo amanhecer da Igreja e dos pobres da América Latina e, também, certamente, de toda a Igreja. Foi uma alegria, para nós, termos visitado e rezado no santuário de Aparecida, em um dos fins de semana. Lá tivemos um encontro com membros da fraternidade leiga.
Nós consideramos a necessidade de renovar nossas próprias raízes na vida em fraternidade e no evangelho. A beatificação do Irmão Carlos, em 2005, abriu sua espiritualidade a toda a Igreja. Isto nos convida a responder à seguinte pergunta: Queremos seguir o caminho do Ir. Carlos em nossa vida de sacerdotes? Precisamos divulgar em nossas fraternidades o valor e a importância do dia de deserto e do mês de Nazaré. Trata-se de algo vital. A beatificação do Ir. Carlos é uma oportunidade para renovar nosso esforço de ir ao encontro de padres jovens em nossas dioceses. Um compromisso mais profundo com o evangelho e com uma vida mais simples é essencial. Isto nos levará a um amor mais forte e presença na vida de nosso povo, especialmente entre os mais pobres.
Recordamos nossos irmãos de alguns lugares da Ásia, África, Austrália e Leste Europeu e lamentamos sua ausência, causada por razões diversas.
A gratidão é a memória do coração. Agradecemos sinceramente ao Mariano e aos demais membros da Equipe Internacional (equipe que deixa a coordenação) por seu serviço profético na Fraternidade.
Pedimos a bênção de Deus para o novo Responsável Internacional, Abraham Apolinário (Republica Dominicana) e sua equipe, José Bizon (Brasil), Richard Reiser (USA) e Eddy Lagae (Bélgica). O futuro está em boas mãos.
Finalmente, agradecemos à fraternidade do Brasil, a José Bizon, a toda a equipe de serviço e às pessoas de São Paulo por sua generosidade e maravilhosa hospitalidade.
Nós nos abandonamos ao Pai, porque o caminho é longo.
Entregamos o futuro com confiança ao amor de Jesus. Amém.
Obrigado.
São Paulo, 22 de novembro de 2006.
* IX Assembléia Internacional da Fraternidade Sacerdotal Jesus+Caritas - 07 a 22/11/2006 *
Fraternidade Sacerdotal Jesus-Caritas
06 a 22 de novembro de 2006
São Paulo
A IGREJA DO BRASIL
PREPARANDO A CONFERÊNCIA DE APARECIDA
A Igreja Católica no Brasil e no conjunto da América Latina vive um momento de esperança – a perspectiva de que a Conferência de Aparecida retome as grandes opções fundamentais do Concílio Vaticano II. Então, teremos como referenciais irrenunciáveis para a 5a. Conferência: o primado absoluto da Palavra, a afirmação da Igreja como Povo de Deus, a redescoberta da colegialidade eclesial e a presença da Igreja no mundo, em uma relação de diálogo e serviço.
Dentro do método Ver, Julgar e Agir, tentarei apresentar, de forma sintética, as grandes aspirações da Igreja no Brasil: partindo da realidade como lugar de presença do Espírito e do Reino, detectando os verdadeiros sinais dos tempos, e à luz dos ensinamentos do Magistério, perceber os desafios pastorais e os elementos a serem enfatizados em Aparecida.
I. SINAIS DOS TEMPOS PARA A IGREJA NO BRASIL E NA AMÉRICA LATINA[1][1]
A realidade com suas contradições e disparidades:
No campo
social verifica-se o crescimento da desigualdade social e o número dos
marginalizados preocupa; nota-se o fechamento das pessoas no seu eu,
esquecimento de sua natureza relacional; o individualismo levado às extremas
conseqüências desumaniza a vida, gera drogados, menores de rua, doentes
mentais, mendigos, famílias desorientadas.
No plano econômico, considera-se mais importante o
crescimento da produção em detrimento do crescimento humano. Crescem os
sentimentos de eficácia e ganância por melhores resultados, com conseqüências
para a dignidade humana.
Os interesses sócio-econômicos traduzem a concentração de poder dos que possuem o controle tecnológico e de armamento bélico; provocam o desemprego estrutural.
A causa geradora dessa situação é a injustiça social - a má distribuição da renda que cria uma “ordem” econômica mundial perversa, aprofundando sempre mais o abismo entre ricos e pobres.
Economicamente, não existe mais soberania absoluta, o capital especulativo invade a economia dos países mais frágeis, fragilizando o equilíbrio econômico dos mais fracos. A Amazônia, por exemplo, está na mira de uma internacionalização, por meio da biopirataria.
No campo político, durante as campanhas eleitorais, os candidatos manipulam o povo que, mais uma vez, acredita e espera por mudanças. Por falta de esclarecimento das pessoas, conhecimento dos seus direitos, em fim, de cidadania. Os pobres são usados como produto descartável, por falta de uma consciência de cidadania. A democracia social e participativa só dá os primeiros passos.[2][2]
No campo religioso, as ofertas religiosas de hoje buscam uma felicidade fictícia baseada no bem estar e tranqüilidade pessoal sem o compromisso com a ação transformadora à luz do Evangelho. Suas características são, ora o fundamentalismo rígido e o apego a ritos e fórmulas de suas crenças, ditando uma falsa e inescrupulosa “teologia da prosperidade, ora a irresponsabilidade de uma busca e apego por um sentimento religioso light que traga paz, sossego, permissividade, que geralmente se emaranham no sincretismo, sem um compromisso com a verdade e a transcendência.
Tudo isto num mundo globalizado que é uma faca de dois gumes, porque seus efeitos dependem do que fizermos com ela. De um lado, vê-se alteração da identidade cultural dos povos, o culto do próprio eu, do dinheiro e do prazer. É o fim da solidariedade, da família, da dignidade da mulher, da heterossexualidade, do casamento e da vida.
A ganância que busca o lucro fácil (capital volátil) explorando as regiões de mão-de-obra baratas, a aceleração da movimentação de bens e capital absurdamente desproporcional à movimentação das forças de trabalho (problema da mobilidade humana).
Em outra perspectiva, a
globalização propicia uma acelerada integração entre os povos e os países do
mundo, produz um processo de conhecimento da identidade cultural, da natureza
e dos grupos humanos que se sentem ameaçadas, criando extensas redes de defesa
dos direitos humanos. Em alguns casos possibilitam a união dos povos e nações,
atualização e acesso às informações.
Em resumo, alguns dos grandes desafios constatados em nossa realidade:
a) A pobreza crescente e os grandes contrastes;
b) A violação aos direitos humanos;
c) A ameaça de um desastre ecológico;
d) Pluralismo religioso;
e) A massificação e o anonimato do mundo urbano.
f) A desagregação familiar
g) Desagregação familiar
II. BUSCA DE FIDELIDADE AO ESPÍRITO NA RELAÇÃO IGREJA-SOCIEDADE NA AMÉRICA LATINA
O parágrafo 4º. da Carta Apostólica do Papa Paulo VI, Octogésima Adveniens, celebrando os 80 anos da Rerum Novarum, nos lembra que ”cabe às comunidades cristãs analisar, com objetividade, a situação própria do seu país e procurar iluminá-la com a luz das palavras inalteráveis do Evangelho; a elas cumpre haurir princípios de reflexão, normas para julgar e diretrizes para a ação, na doutrina social da Igreja [...] A essas comunidades cristãs incumbe discernir, com a ajuda do Espírito Santo, em comunhão com os bispos responsáveis e em diálogo com os outros irmãos cristãos e com todo os homens de boa vontade – as opções e os compromissos que convém tomar, para realizar as transformações sociais, políticas e econômicas que se apresentam como necessárias e urgentes, em não poucos casos”.
Exatamente nesta missão de co-responsabilidade que a Igreja da América Latina tentou concretizar a recepção do Concílio Vaticano II, de forma criativa, a partir da nossa realidade.
Padre Henrique Vaz sj, filósofo e pensador do país, tomando consciência de que a Igreja da A.L rompia com laços antigos, batizou este fenômeno de uma passagem de uma Igreja-reflexo para uma Igreja-fonte. Naturalmente, com altos e baixos, com maior autonomia ou com dependência e submissão.
No momento em que a Igreja no Brasil e em toda a América Latina se prepara para a 5ª. Conferência do Episcopado, em Aparecida[3][3], será importante relembrarmos as opções básicas das últimas Conferências (Medellin, Puebla, São Domingos). Estas opções contribuíram para colocar em prática a renovação do Vaticano II nas nossas Igrejas locais, ajudando, ao mesmo tempo, à Igreja Universal.
Tinha como objetivo refletir sobre a missão da Igreja na atual transformação da América Latina à luz do Concílio Vaticano II. Seus pontos chaves:
1. A opção preferencial e solidária pelos pobres
Embora a formulação “opção pelos pobres” seja própria de Puebla, já estava, no entanto, presente em Medellin de várias maneiras. Lembramos algumas passagens:
No documento sobre a Pobreza: ”Queremos que a Igreja seja evangelizadora e solidária com os pobres, testemunha do valor dos bens do Reino e humilde servidora de todos os homens de nossos povos. Seus pastores e demais membros do Povo de Deus devem dar à sua vida, suas palavras, atitudes e ação, a coerência necessária com as exigências evangélicas e as necessidades dos latino-americanos” (III, 8). Logo adiante: “Devemos tornar aguda a consciência do dever de solidariedade para com os pobres. Esta solidariedade significará fazer nossos os seus problemas e lutas e saber falar por eles. Isto se concretizará na denuncia da injustiça e opressão, na luta contra a intolerável situação em que se encontra freqüentes vezes o pobre e na disposição de dialogar com os grupos responsáveis por esta situação a fim de fazê-los compreender suas obrigações” (III, 10). Neste contexto, entrou a terminologia libertação, intimamente ligada à opção pelos pobres, numa perspectiva teológica e bíblica.
2. Evangelização e a libertação integral
Medellin deu uma conotação original a esta opção pelos pobres – seu caráter estrutural. Fala de “opressão estrutural”, “situação de injustiça e de pecado” do continente. Também se refere à violência institucionalizada.
Ao mesmo tempo, Medellin buscava responder, a partir do Evangelho, ao “surdo clamor que brotava de milhões de pessoas, pedindo s seus pastores uma libertação que não lhe advém de parte algumas”; e repete a palavra de Paulo VI aos camponeses na Colômbia: “agora, nos escutais em silêncio mas ouvimos o grito que sobe de vosso sofrimento” (14, 2).
A mensagem final de Medellin expressa compromissos que serão assumidos por todo o povo de Deus, entre os quais afirma, sem querer substituir os governos, a busca de “inspirar, estimular e urgir uma nova ordem de justiça que incorpore todos os homens na gestão das próprias comunidades”.
3. As comunidades Eclesiais de Base (CEBs)
A Conferencia de Medellin explicita com insistência a temática das CEBs sob o aspecto eclesiológico, pastoral e social. Uma resposta à concepção da Igreja “comunidade de comunidades”, à evangelização dos pobres como sujeitos da evangelização e da promoção integral. Falando sobre a renovação de estruturas pastorais diz: “A comunidade cristã de base é o primeiro e fundamental núcleo eclesial, que deve, em seu próprio nível, responsabilizar-se pela riqueza e expansão da fé, como também pelo culto que é sua expressão. É ela, portanto, célula inicial de estruturação eclesial e foco de evangelização e atualmente fator primordial de promoção humana e desenvolvimento” ( 15,10).
4. O método da Gaudium et Spes (da JOC) e sua aplicação na A.L.
Tratava-se da leitura dos sinais dos tempos seguindo o ritmo já proposto por João XXIII na Mater et Magistra - Ver, Julgar e Agir - e assumido na Gaudium et Spes. No Ver, Medellin se propunha contemplar com os olhos da fé a realidade histórica e social, com a contribuição das ciências sociais. Logo na introdução os bispos refletem: “Não podemos deixar de descobrir nesta vontade, cada vez mais tenaz e apressada de transformação, os vestígios da imagem de Deus no homem, como um potente dinamismo” (n.4).
A Conferencia de Puebla em 1979.
O contexto já era outro. A grande pergunta que estava presente: como re-situar Medellin na nova conjuntura política e eclesial da América Latina?
Governos militares em muitos países do continente, sob a ideologia da lei de segurança nacional. Na Igreja, a transição de papas – morte de Paulo VI e João Paulo I e entrada de João Paulo II no Governo da Igreja.
Diante da questão - se Puebla dá continuidade a Medellin -, alguns são mais otimistas, outros mais reservados. Dom Paulo Evaristo Arns dizia: “Medellin batizou uma nova Igreja na América Latina e Puebla crismou”. Já Padre Libãnio, no artigo supracitado, fala de modo menos entusiasta: “a nitidez e a contundência das opções de Medellin receberam no documento de Puebla matizes diversos. Ele enfraqueceu as opções centrais pelos pobres e pela libertação. Deslocou o termo libertação para evangelização libertadora. E desviou o acento para a cultura e para a religiosidade popular”.
No entanto, não podemos subestimar a leitura espiritual que Puebla faz dos rostos concretos da América Latina quando diz: “Esta situação de extrema pobreza generalizada adquire, na vida real, feições concretíssimas, nas quais deveríamos ver as feições sofredoras de Cristo, o Senhor que nos questiona e interpela (cita as varias feições) (n.31-39)”.
Também acentua a opção pelos jovens, a defesa da dignidade humana...
A Conferencia se reuniu no clima da memória do descobrimento ou conquista das América e dos inícios da evangelização.
Estávamos em plena ebulição neoliberal com novo tipo de pobreza – desemprego, exclusão social. Na Igreja, havia um processo de contestação e de desconfiança da teologia da libertação e crescimento dos movimentos eclesiais, sobretudo a renovação carismática. Ao mesmo tempo, o surgimento de movimentos feministas, ecológicos, pacifistas, anti-racistas e inter-religiosos.
Algumas tendências vieram a tona. No campo social, a problemática social, voltada para a luta contra a injustiça, deslocou-se para a evangelização da cultura moderna. A proposta da nova Evangelização carregava ambigüidades; uns a viam como retrocesso, outros achavam que confirmava a nova evangelização já prevista em Medellin.
Alguns aspectos positivos chamam a atenção em Santo Domingo: a solidariedade latino-americana e mundial, a inculturação, a releitura das novas feições de pobres, a valorização do papel dos leigos...
Do material-síntese oferecido pela Igreja do Brasil para Aparecida, detectamos como desafios:
· Uma leitura do momento cultural atual, a mais próxima possível do real, fugindo da visão virtual, apresentada pelos meios de comunicação.
· Identificação dos novos ‘Sinais dos Tempos’, próprios de nosso Continente.
· O desafio da experiência religiosa hoje, por um lado, eclética e difusa, mercadológica e fragmentada, subjetivista e individualista e, por outro, fundada na liberdade, na gratuidade, no presente e na materialidade da vida.
· O diálogo da Igreja com o mundo das ciências, em especial com aquelas ligadas à engenharia genética, assumindo uma posição profética diante das novas tecnologias de manipulação da vida.
· Sensibilidade pastoral para olhar com misericórdia, repletos de compromisso e responsabilidade, as novas situações que nos interpelam.
De índole eclesial
· O fenômeno ambíguo das ‘novas comunidades de vida’, em sua autonomia frente às instituições e distância da experiência de vida religiosa tradicional.
· O direito de todas as comunidades eclesiais terem a celebração eucarística dominical, sobretudo quando 75% de nossas celebrações semanais são sem padre; ligada à questão, está o questionamento à obrigatoriedade do celibato presbiteral.
· Os problemas do clero no que se refere ao homossexualismo, a abusos sexuais etc.
· O empreendimento de esforços para o auto-financiamento da Igreja e de sua pastoral como caminho pedagógico para a comunhão e co-responsabilidade eclesiais.
· A necessidade de uma linguagem compreensível que fale ao homem e à mulher que sofrem.
· Redescoberta e recuperação da teologia dos ministérios leigos na compreensão do Vaticano II e das conferências episcopais Latino-americanas.
· Desafios que permanecem: falta de evangelização, de formação (catequese adulta) e de compromisso vivo. Contentar-se apenas em freqüentar a Igreja ocasionalmente (acomodação) sem uma intimidade profunda com Cristo na comunidade e senso de pertença a um determinado grupo religioso e social.
· Superação de uma eclesiologia com uma visão tradicional e “jurídica” de paróquia.
· Atitudes que levem os cristãos à solidariedade, principalmente junto aos mais abandonados e desprotegidos.
· Uma eclesiologia desligada da cristologia (muita Igreja, pouco Jesus de Nazaré).
· A pastoral urbana, que leve a Igreja encarnar-se na cidade e evangelizar, no seio da cultura moderna e pós-moderna, na sociedade do conhecimento.
· A co-responsabilidade na missão entre a Igreja universal e as Igrejas Locais, no respeito ao princípio da subsidiariedade.
· A renovação litúrgica e uma liturgia inculturada no universo simbólico dos povos de nosso Continente.
· Ação para transformar as grandes massas famintas: de objetos dos programas governamentais neoliberais, em sujeitos de sua própria libertação e desenvolvimento. A opção pelos pobres é mais necessária que nunca.
· O trabalho em defesa dos direitos humanos como tarefa inadiável para a Igreja latino-americana e caribenha. Ela deve levantar a voz para defender aqueles que se calam por serem fracos e indefesos. Por outro lado, a Igreja deve viver em seu interior o que deseja que se viva na sociedade. Quantos abusos de autoridade poder-se-iam evitar ou corrigir.
· A terra é um organismo vivo que Deus colocou sob nossa responsabilidade. Deveríamos ter uma aguda consciência ecológica.
· O diálogo inter-religioso é uma necessidade urgente em nosso continente.
· O compromisso de agir em defesa da vida em sentido amplo, para que todos tenham vida e vida em abundância (Jo 10,10) e não apenas em relação ao aborto e eutanásia, vem da opção de fé no Cristo e do seu seguimento.
· Criação de condições para que os cristãos façam a experiência do encontro com Jesus, através da oração pessoal e comunitária, de uma catequese centrada na pessoa de Jesus e da participação na Eucaristia.
· Destemor diante das grandes causas da América Latina: libertação; opção pelos pobres; relação fé-práxis; unicidade da história de salvação, etc. Fazer que essas causas marquem bem os conteúdos: teologia, escatologia, eclesiologia e missiologia.
Padre José Ernanne Pinheiro
ELEMENTOS PARA REFLETIR A
CONJUNTURA
(Novembro de 2006)
I - BALANÇO DE ESPERANÇAS FRUSTRADAS
O que se passa hoje no Brasil, na América Latina e Caribe é mais facilmente entendido se levarmos em consideração o que está acontecendo como tendência mundial.
A globalização, fruto de imenso progresso tecnológico, traz melhoria tanto sob o aspecto econômico e social como no tocante à vida política e cultural. O problema é que até agora ela é apresentada apenas como liberalização geral da economia, também chamada de neoliberalismo, que pretende deixar a solução dos problemas mundiais exclusivamente nas mãos invisíveis do mercado. Este passa a penetrar todas as dimensões da vida individual e coletiva. As grandes mudanças mostram que há modelos onde o progresso técnico tornou possível, com competência e rapidez, o acesso de muitos ao mínimo necessário à sobrevivência, equilibrando de maneira racional o uso dos benefícios.
As decisões, porém, passam cada vez menos pelo crivo democrático da vontade majoritária. A hegemonia da globalização financeira - intensificada nesses últimos anos e associada ao fluxo especulativo do dinheiro sem fronteiras - reduziu o papel dos estados nacionais e o controle social e democrático sobre o rumo das políticas públicas exercido pelos cidadãos e a sociedade civil organizada.
Havia muita expectativa, no início da década de 90, em torno de utopias de bem-estar que, infelizmente, foram dando lugar ao realismo de medidas que visaram a reforçar a hegemonia do dinheiro e do consumo, a enfraquecer os estados nacionais e a favorecer as grandes fusões empresariais. Há na origem de todas as expectativas frustradas um forte componente cultural e político. Esperava-se uma década de distribuição da riqueza, de satisfação das necessidades básicas, de grande desenvolvimento social e progresso tecnológico a serviço de respostas positivas ao bem-estar das pessoas e das sociedades.
As grandes conferências mundiais da Organização das Nações Unidas (ONU), realizadas após a queda do muro de Berlim, expressaram algumas dessas expectativas. As principais foram: “direitos das crianças” (Nova York, 1990); o “meio ambiente” (Rio de Janeiro, 1992); “os direitos humanos” (Viena, 1993); “o crescimento demográfico” (Cairo, 1994); “o desenvolvimento social” (Copenhague, 1996); “os direitos das mulheres” (Pequim, 1995); “o habitat humano” (Istambul, 1996); “a alimentação” (Roma, 1996); “as mudanças climáticas” (Kyoto, 1997).
Cada crise financeira internacional tem sido seguida de conseqüências desastrosas do ponto de vista social[5]. Elas provocam desemprego, miséria e violência. As verdadeiras causas dessa instabilidade, no entanto, nunca são efetivamente atacadas pela ordem econômica mundial. Esta, ao contrário, fortalece aquela mesma instabilidade mediante a intocável estratégia da liberalização financeira.
O Desmonte do estado do bem-estar social
O desmonte do estado do bem-estar social tem sido uma conseqüência imediata dessa nova ótica internacional. Assiste-se, pouco a pouco, à passagem para a iniciativa privada da grande massa de recursos financeiros e produtivos. A eficiência e produtividade são as leis fundamentais, provocando grandes fusões de empresas. O que antes era serviço público essencial como educação, saúde, transporte, segurança, acesso à terra, à moradia e outros, passa a ser explorado como atividade comercial, regulamentada e controlada por essa nova ordem, e não como garantia dos direitos mínimos sociais.
A idéia de um estado nacional estava presente nas conquistas dos direitos universais e do bem-estar social, que deveriam ser garantidos a todos. Isso já não acontece diante das novas exigências do atual ciclo histórico do capitalismo, em que prevalecem as leis absolutas do mercado financeiro.
Cresce a pobreza e concentra-se a riqueza
Embora muitos a recusem, vendo nela um mecanismo gerador de pobreza, o mundo vive sob o império da globalização econômica. O projeto neoliberal já há longo tempo comanda a economia, sem alternativas, após a queda do socialismo real. A tendência dos defensores desse tipo de nova ordem é mostrar que a pobreza cresce nos países que não se prepararam para a nova situação do mundo. Explicam que as desigualdades perduram onde permanecem as estruturas onerosas do Estado, com o déficit fiscal crônico, onde não se fizeram as reformas adequadas. Segundo eles, muitos países ficam no meio do caminho nas reformas que preparariam o advento dessa nova ordem.
Tudo isso até pode ter pedaços de verdade. Mas, mesmo superadas as crises, permanece inquestionável o fato de que o modelo[6] imposto como hegemônico é profundamente concentrador da riqueza e, conseqüentemente, provoca o aumento da pobreza.
As economias nacionais, principalmente as dos países chamados emergentes, são hoje presas fáceis dos capitais que se concentram nas mãos de especuladores de mercado, em que o lucro é o resultado mais importante, sendo raramente aplicado em função da produção e distribuição da riqueza. Há assim uma lógica perversa, sob o império da falta de ética, que corta os investimentos sociais, flexibiliza os direitos trabalhistas, causa a destruição da assistência social como garantia de direitos universais; enfim, que não prioriza a pessoa humana e suas necessidades fundamentais: habitação, saúde, saneamento, educação, segurança, trabalho.
É a partir dessa lógica que se deve procurar a causa principal do crescimento da pobreza no mundo. A submissão absoluta do Estado às leis de mercado na verdade é a grande responsável pelo crescimento da pobreza e das desigualdades na medida em que nada se faz para desencadear uma distribuição das riquezas. “A tirania do dinheiro e da informação está na base do atual desarranjo do capitalismo global”[7]. É a partir também da lógica perversa da globalização financeira que se explica a generalizada corrupção que invade inclusive as estruturas políticas, colocando em questão os padrões éticos no trato da coisa pública.
Importantes instituições financeiras internacionais tais como o Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial entre outras, até adotam novos discursos e são contrárias à corrupção e a favor do combate à pobreza. Continuam, contudo, exaltando a submissão absoluta às leis do mercado que geram a destruição do bem-estar social e causam essa nova desordem global. Assim tornam-se contraproducentes, quando não hipócritas, as suas receitas anticorrupção, pois o próprio mecanismo de fluxo incontrolado de capitais cria os seus espaços de macrocorrupção - como os ocultos paraísos fiscais - enquanto aquelas receitas atingem apenas os efeitos menores da corrosão ética.
A Globalização econômica em questão
Como se sabe, em Davos, na Suíça, realiza-se anualmente um forum que congrega a fina flor da globalização financeira. É bem verdade que existem expressivas reações a essa globalização. Elas começaram a tomar corpo com as manifestações ocorridas por ocasião da da 3ª Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) - realizada em outubro de 1999 em Seattle, EUA. A 10ª Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento - UNCTAD 10 -, esta realizada em Bangcoc, na Tailândia, entre 12 e 19 de fevereiro de 2000, foi uma espécie de Davos dos pobres. Discutiram-se os efeitos da globalização e pretendeu-se buscar um novo paradigma econômico “definido em dois pontos: voltar a algum tipo de regulamentação das economias, em especial controles sobre o fluxo financeiro de curto prazo, e decidir como tratar comércio e investimentos de tal forma que permitam a inserção dos países em desenvolvimento no mercado internacional”.[8] . No mesmo ano de 2000 em Havana, Cuba, acontece a reunião do chamado Grupo dos 77, com propósitos semelhantes aos da UNCTAD 10.
O contraponto à hegemonia da globalização financeira se solidificou com a instalação do “Forum Social Mundial” em 2001, hoje em dia o aglutinador das esperanças de todos os que acreditam que um “outro mundo é possível”.
II - O BRASIL NA AMÉRICA LATINA[9]
Se for pedido a uma amostra de brasileiros, inclusive gente com instrução de nível superior, que tracem de memória o mapa do Brasil, o resultado mais provável é que o litoral corresponda aproximadamente à realidade, mas não as linhas fronteiriças com os vizinhos. De fato, é pequeno nosso conhecimento dos outros povos e países do continente. Neste contexto, a preparação da 5ª Conferência do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), a realizar-se em Aparecida do Note, SP, em maio de 2007, será para o Brasil uma excelente oportunidade de tomada de consciência latino-americana e de busca de um desenvolvimento integral e integrado. Este evento, de natureza eclesial, acabará por beneficiar sobremaneira o esforço da sociedade brasileira em busca do bem-estar, pois hoje não é mais possível um desenvolvimento sem cooperação regional. Tomando como referência as quase três décadas desde a Conferência de Puebla, aparecem no campo da realidade social e política fatos que nos desafiam e merecem atenção.
Realidade Social
Persiste, no conjunto dos nossos países, a situação de pobreza e miséria, porque persiste a concentração da riqueza, da renda e da terra. A promessa capitalista de que se fosse “aumentado o bolo” ficaria mais fácil reparti-lo não se realizou. O crescimento econômico do pós-guerra até os anos 1970 foi desfeito pela dívida externa e o modelo neoliberal aplicado desde os anos 1980 deu resultados pífios em termos de crescimento econômico, apesar de seu alto custo social (notadamente o desemprego). Daí a persistência, senão o agravamento, da desigualdade social: num pólo, uma diminuta mas poderosa classe empresarial inserida no mercado global (em grande parte pela exportação de produtos primários), no outro uma enorme massa de pessoas sem lugar no mercado, sobrevivendo no subemprego, na economia informal, da assistência social ou mesmo de atividades ilícitas. Entre esses dois pólos, uma camada intermediária formada por diferentes classes sociais da cidade e do campo, algumas inseridas no setor moderno da economia (agricultura, indústria e serviços), outras agregadas aos aparelhos do Estado e ainda outras conservando formas tradicionais de vida, principalmente no campo. Neste contexto, a “opção preferencial pelos pobres”, que agora compreende também e principalmente os excluídos do mercado, é ainda mais atual do que foi no século passado.
Conseqüência visível dessa desigualdade é o crescimento da violência, principalmente nas cidades e nas zonas onde atua o narcotráfico. Os índices de mortalidade entre os jovens atingem tais níveis que seus efeitos já podem ser percebidos em estudos demográficos. Tais pessoas são mais vítimas do que agentes da violência, mas são elas que amedrontam a sociedade com sua contracultura de contestação. Também aqui se aplica, com enorme pertinência, a “opção pelos jovens” feita em Puebla.
Também em conseqüência da situação de desigualdade, cresce a migração, principalmente de jovens, para a América do Norte e Europa. Embora muito úteis para desempenharem funções econômicas pouco ou não-qualificadas, esses e essas migrantes são socialmente discriminados e têm sua vida seriamente ameaçada: só em 2005, 464 pessoas perderam a vida tentando atravessar a fronteira entre os EUA e o México, grande parte no deserto do Arizona. Para evitar sua entrada, o governo dos EUA quer construir o novo “muro da vergonha”, de modo a separar o rico norte do sul empobrecido. A face mais cruel desse processo migratório é o tráfico de mulheres e crianças, iludidas ou forçadas a deixarem sua terra para satisfazerem o apetite sexual de pessoas frustradas. O tráfico de pessoas, no sentido mais amplo, é o 3º negócio mais rentável do mundo (só perde para as armas e drogas). Isso provoca a fragmentação dos valores familiares que estão na base de nossa cultura. Pesquisas mostram que não se trata tanto de perda de valores, mas sobretudo da fragilidade das famílias ou das pessoas para resistirem às investidas do mercado que lhes promete todo tipo de vantagens materiais. Por serem as famílias atingidas em sua integridade, ganha muita atualidade a “opção pela família”.
Não podemos, contudo, deixar de ver que, ao lado dessas realidades tenebrosas, há também realidades luminosas em Nossa América, pois estão crescendo em volume e em qualidade as reações da sociedade contra a secular situação de injustiça e desigualdade. Sob a forma genérica de movimentos sociais e populares, multiplicam-se as organizações que trazem propostas alternativas. A mais visível é, certamente, o Forum Social Mundial, que não por acaso tomou forma na América Latina, anunciando para os demais povos que “outro mundo é possível”. Não é ele, porém, o único sinal de vitalidade de nossos povos: movimentos de povos indígenas, de camponeses, de mulheres, de negros e de tantos outros grupos estão construindo novas formas de economia solidária, de mobilizações pela Paz e por Direitos Humanos, enfim, reavivam a esperança de um mundo mais justo, democrático e pacífico. Cabe acrescentar que a Igreja tem sido parceira - e muitas vezes também a parteira - desses movimentos e organizações na busca de uma “civilização do amor”.
Cultura
Os estados nacionais têm como matriz cultural uma herança colonial de difícil superação: a valorização exacerbada do que vem de fora (principalmente dos EUA e Europa), em detrimento da cultura, história, tradição nacional e latino-americana. Tal matriz cultural foi agravada pela experiência escravista ou servil vivida pela maioria dos nossos países, gerando o preconceito racial contra afrodescendentes e indígenas. Em vários países, porém, assistimos a movimentos indígenas em busca de reconhecimento de sua identidade, reivindicando reparação pelo uso de suas terras. Povos do México, Equador, Bolívia, Guatemala, Peru e Brasil têm muitas experiências positivas neste campo. Também movimentos contra o preconceito a afrodescendentes têm crescido e em alguns países – como Cuba e Brasil – importantes passos foram dados no sentido de sua superação. Assim, a cultura latino-americana e caribenha tem suas bases latinas e cristãs enriquecidas pela contribuição de outros povos e tradições.
Política e economia
No pano de fundo de toda análise da realidade atual precisa estar a memória do projeto colonial: nossos países foram formados para serem economicamente explorados pela metrópole. Este foi o escopo do mercantilismo que marcou o império português e espanhol dos séculos 16 a 18 e também do capitalismo de mercado que tomou seu lugar desde o século 19, sem contudo eliminar todas as formas de trabalho escravo e servil. Nossos povos ainda não se libertaram inteiramente daquela situação subalterna e continuam na periferia do sistema econômico mundial. No entanto, hoje percebemos fatos muito significativos no processo de emancipação nacional e de desenvolvimento social e econômico, tais como:
· Emergência dos pobres, principalmente operários e indígenas, cuja participação na política nunca havia ido além do papel de atores coadjuvantes no cenário político. Nos dois últimos decênios do século 20 deram importante contribuição ao processo de derrubada dos regimes militares que oprimiam nossos países, contribuindo para a redemocratização. E, neste início de século, estão trazendo para as instâncias mais altas de governo um projeto nascido dos setores populares.
· Nova consciência de ética na política, diante de sistemas políticos baseados na corrupção, no clientelismo e que sempre asseguraram aos poderosos a certeza da impunidade. Essa consciência se expressa em mobilizações sociais que vêm ganhando vulto cada vez maior. Um exemplo disso é a revisão das leis que impediam a apuração de tortura e outras violações aos direitos humanos cometidas por militares.
· A falência da economia argentina expôs o fracasso do neoliberalismo na América Latina e motivou uma virada de vários países para propostas de centro-esquerda: a própria Argentina, Venezuela, Brasil, Uruguai, Chile e Bolívia. Essa reconfiguração do panorama político motivou a busca de outro modelo de integração latino-americana. Seu primeiro efeito foi a desarticulação da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), com a conseqüente pressão dos Estados Unidos para que os países mais dependentes assinem o TLC (Tratado de Livre Comércio), cujas cláusulas são mais desfavoráveis ao seu desenvolvimento.
· Diante da globalização da economia, aumenta o número de países que buscam a integração da economia regional, para juntos saírem de uma posição periférica e, em bloco, participarem do comércio mundial em situação de paridade. O Mercado Comum do Cone Sul (Mercosul) é um desses sinais de uma política econômica regional capaz de romper os antigos vínculos de submissão de nossas economias aos interesses dos EUA.
Cabe aqui a informação de que o Senado Federal aprovou no dia 12/09/06 a criação e implantação do Parlamento do MERCOSUL, já aprovado pela Câmara dos Deputados. Seu Protocolo foi assinado pelos governos da Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai e espera ratificação dos parlamentos desses países para a sua instalação. A expectativa é que o Parlamento do Mercosul seja inaugurado em novembro deste ano, devendo aumentar a transparência e sintonizar as posições políticas das sociedades dos países do Bloco. A sessão inaugural na data prevista ocorrerá em um momento de ajuste no Mercosul, que recebeu a adesão da Venezuela e o possível ingresso do Chile e Bolívia, mas enfrenta as críticas dos sócios menores - Uruguai e Paraguai - que anunciaram sua intenção de buscar acordos de livre comércio com os Estados Unidos.
Ecologia
Foi despertada a consciência de que somos responsáveis pela vida do Planeta, hoje ameaçada. O movimento ecológico, que nos anos 1980 era pouco mais que uma curiosidade, ganhou vulto e já é hoje um fator de peso nas decisões políticas. A esta consciência social contrapõe-se a economia de mercado, que não considera os direitos da Terra quando se trata de contabilizar lucros. Sua hegemonia coloca em risco a própria vida na Terra, pois o mercado insiste em ultrapassar os limites dos recursos renováveis, não tendo em conta que a vida do Planeta deve ser o parâmetro do desenvolvimento econômico.
Uma conseqüência desta nova consciência ecológica é o início de um movimento de âmbito regional em defesa da Amazônia e do Pantanal, cujas bacias atingem quase todos os países da América do Sul. A defesa destas duas bacias e de seus ecossistemas, impondo projetos de desenvolvimento ecologicamente sustentáveis, tende a ser uma das bandeiras capazes de unir todo o continente.
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III - A BUSCA DA IDENTIDADE LATINO-AMERICANA
O processo de globalização, na sua vertente política e neoliberal, não atingiu da mesma forma os países centrais e os países periféricos, como os da América Latina: os “países centrais, propulsores do modelo, são os mais reticentes em aceitá-lo por inteiro, enquanto que a América Latina mostrou-se mais uma vez um continente aberto” [10].
Hoje se busca descobrir as razões que levam países, com maior ou menor grau de dificuldades econômicas e imensos problemas sociais, como o Brasil, a Argentina, o Equador, Chile, Paraguai, Bolívia, Venezuela e outros a enfrentar a hegemonia neoliberal que impede a construção da identidade nacional.
Tudo indica que o modelo neoliberal implantado na América Latina muito dificulta projetos nacionais autônomos e socialmente avançados. As grandes revoluções acontecidas na Europa - desde a Revolução Francesa, passando pelo Iluminismo e a Revolução Industrial - aqui chegaram tardiamente ou não chegaram. As mudanças provocadas pelas revoluções colocaram as bases para a existência dos estados nacionais no velho continente.
Há, entre nós latino-americanos sinais de mudança e questionamento do modelo que privilegia o econômico sobre o social. São atitudes de governo, personagens e mobilizações populares que questionam, na prática, o modelo neoliberal. Dependendo da situação em cada país, tais sinais são distintos, porém convergentes. A Venezuela e Bolívia buscam novos caminhos, com forte apoio popular, nacionalista e populista. A eleição de Lula no Brasil em 2002 despertou grandes esperanças, muitas delas frustradas.
A sua esmagadora reeleição em 2006 consagra a social democracia como esforço preliminar, ainda que incompleto, de democratização e distribuição de renda capilar entre as bases populares e classe média ascendente. Isso criou uma fissura nas velhas oligarquias políticas, a elite detentora de poder e beneficiária da riqueza concentrada.
A fixação popular na identidade do presidente reeleito como “um dos nossos” solidificou um tipo inusitado voto de confiança, apesar de todas as contradições da sua base de sustentação política e denúncias de corrupção. O grande alcance popular da figura pessoal de Lula, os pequenos e acertados projetos sociais do seu governo promoveram, na prática, um início de revolução popular expressa na magnitude dos votos com que foi reeleito presidente da república.
Garantida a estabilidade econômica no Brasil e com ela uma base popular que deu um salto de qualidade na superação da pobreza, resta ainda o grande desafio de um projeto de nação a ser construído, de modo sustentável, com a participação de todos e com a feição dos que emergem da pobreza e da exclusão.
O Brasil aparece no cenário latino-americano e caribenho como sinal de esperança pela sua natural presença geográfica como fator de influência, no bom sentido, para ajudar o conjunto a crescer em projetos nacionais interligados. Além disso, configura-se entre todos os países a consciência de que é urgente fortalecer os projetos nacionais voltados à superação do substrato colonialista.
Há sinais evidentes de que as pequenas lutas e as ações desenvolvidas por políticas públicas dos governantes têm ajudado a fortalecer a construção de um novo momento da nossa história. A superação da miséria, da pobreza, das discriminações, o fortalecimento dos direitos universais e inalienáveis, a preservação do meio ambiente e da riqueza nacional deixam de ser apenas sonhos e se concretizam de maneira democrática e acessível pela participação popular.
Neste contexto a 5ª Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano emerge como sinal profético de compromisso, de vida e de esperança para América Latina e Caribe.
Pe. Virgílio Leite Uchôa
(organizador)
“Como viver hoje o carisma do Irmão Carlos”
“Pergunta-me se estou disposto a ir mais longe do que Beni-Abbés para difundir o santo Evangelho; para isso, estou disposto a ir ao fim do mundo e a viver até o Juízo final.”
Essa palavra do Irmão Carlos, muitas vezes citada, encontra o seu reflexo na abertura do diretório da nossa “Fraternidade Sacerdotal Jesus+Caritas”: “Na realidade, é por causa de Jesus e de seu evangelho que nós nos encontramos”. “Sacerdotes diocesanos... somos responsáveis pelo anúncio do Evangelho ... somos impelidos pelo Evangelho.” Toda reflexão sobre a nossa espiritualidade característica a ser avaliada, redefinida, novamente assumida com alegria e dinamismo recarregado, tem essa única razão: nós somos apaixonados pelo evangelho: por aquele que fez da sua experiência com Deus uma Boa Nova anunciada e queria depender de seguidores que lhe abrem os caminhos e as porteiras para a sua eterna busca de todos os pequenos e perdidos deste mundo.
As duas palavras “Jesus+Caritas” desenhadas em torno do coração, no qual é implantada a cruz -
ou não seria antes a cruz que nasce deste coração? – identificam a nossa Fraternidade. Charles de Foucauld, o nosso irmão Carlos, expressou nesse conjunto de duas palavras com o esboço simbólico da cruz, o conjunto das suas inspirações, experiências e programações. Jesus e seu evangelho fazem ele exclamar: “Não posso suportar viver outra vida que não seja a sua.”
Irmão Carlos foi beatificado no ano passado. Mais razão ainda teríamos nós de olhar esta vida de um santo tão rica em exemplos inspiradores, como também ouvir as suas mensagens transmitidas numa verdadeira biblioteca de escritos deixados para os que querem acompanhá-lo no seu caminho evangelizador. Mas o mesmo Irmão Carlos diz: “Olhemos os santos não para imitá-los, mas para imitar Jesus.” Então, querido Irmão Carlos: como poderíamos enxergar na longa e enleada trajetória da sua vida aquilo que nos remete ao seu Bem-Amado?
Irmão Carlos, talvez, apontaria para um texto que ele lia, relia e, sem cessar, encontrava coisas novas: “O Espírito Santo... fez aparecer Jesus Cristo no mundo ... Ele já não escreve evangelhos senão nos corações: todas as ações, todas as vivências dos santos são o evangelho do Espírito Santo ... Ele escreve um evangelho vivo no presente, saído das impressoras da vida.”
Com outras palavras: Irmão Carlos convida-nos a descobrir, também nele, o impulso do Espírito Santo, o carisma gratuitamente recebido: esse carisma recebido “o leva a imitação de Jesus, seu Bem-amado Senhor e Irmão, nele se dirige ao Pai, e a partir dele se dirige aos irmãos”. O carisma, o dom do Espírito Santo que Irmão Carlos recebeu, é este evangelho vivo para nós, que como dele fez, de nós fará amigos de Jesus, discípulos amados e evangelizadores. Estamos aqui, convocados pelo Espírito Santo. “Quem tem ouvidos, escute o que o Espírito Santo diz às igrejas”(Apc. 2).
Irmão Carlos não agregou, como São Francisco, dentro de pouco tempo, uma multidão de companheiros/irmãos que seguiram às regras do “santo fundador”, devidamente aprovadas pela autoridade romana. Irmão Carlos era como um viajante noturno procurando, no deserto, acertar o rumo da caminhada por onde não havia caminhos bitolados e nem companheiros de viagem. Mas ele deixou rastros nessa corajosa travessia. Nós da família do Irmão Carlos e, como ele, sacerdotes diocesanos, deixando-nos orientar por estes rastros, percebemos que não somos multidão que arrasta. Somos alguns poucos que, às vezes, duvidamos se somos pioneiros da linha de frente, ou aventureiros atrasados em estradas laterais. Mas temos uma alegre certeza: esse caminho com Irmão Carlos é o caminho do Filho de Deus feito homem em busca de seus irmãos amados pelo Pai. O carisma, dom do Espírito Santo, adquire, em cada um de nós, contornos inconfundíveis para alcançar essa única finalidade: andar, á frente de Jesus “para todos os lugares para onde pensava ir” (Luc.10,1)
À luz do carisma de Irmão Carlos, eu gostaria de tentar um testemunho sobre os carismas do Espírito Santo que se manifestaram na minha própria trajetória sacerdotal, durante as quatro décadas nas veredas do grande sertão nordestino brasileiro. Vivo no meio de um povo carente, sofredor, abandonado, sem perspectiva de transformação, enganado e manipulado pelos seus líderes, mal compreendido no seu estágio cultural e sociológico, vítima de vícios seculares, no entanto, corajoso e resistente, mais conscientizado do que se pensa, com grande percepção do que se revela nas entrelinhas, submetendo-se à lógica da pobreza e, ao mesmo tempo, capaz de esperança e otimismo. A sua prática de fé cristã parece bastante ambígua: muitas vezes é pura e autêntica, muito mais do que a minha; mas, às vezes, também parece pouco iluminada, desvirtuada, mutilada, resistente à proposta de sair do mundo das crenças para a prática libertadora da intimidade com o Pai amoroso de Jesus Cristo.
Cheguei, nestes longos anos, no meio do povo sertanejo, a um recuo reverencial cada vez mais acentuado: diante da realidade, que ainda não entendi; diante da minha incapacidade de perceber a ação do Espírito de Deus lá onde, nos moldes oficiais da religião, não é admitida; diante da multiforme cadeia de causas para hábitos e posturas facilmente interpretadas por preconceitos superficiais. Quanto mais conheço o meu povo, mais percebo que não o conheço, mais o devo conhecer. Descobri que é preciso conhecer para poder amar, um conhecimento que não é nenhum levantamento científico, mas uma humilde aproximação de amor e compaixão.
Nunca teria avançado nesta direção sem o que a nossa Fraternidade chama “a regular e prolongada adoração eucarística”. Na mais agitada vida paroquial consigo passar sempre os primeiros momentos do dia diante do sacrário. O pároco das nossas grandes paróquias onde a maioria dos paroquianos não tem a oportunidade da eucaristia semanal, celebra a missa freqüentemente, com as diversas comunidades e em inúmeras comemorações. Ele faz todo esforço de celebrar dentro do sentido litúrgico e na dinâmica popular e participativa. Ele chama e envolve a comunidade. Mas a silenciosa, solitária e prolongada presença diante da hóstia consagrada no sacrário, fora do momento da celebração, é um aspecto complementar no mesmo e único objetivo da eucaristia: Jesus se torna o nosso alimento. Persistindo na meditação, contemplativos nas atividades envolventes do nosso dia a dia, nós evangelizadores somos evangelizados pela boa nova do Deus encarnado.
Na meditação silenciosa diante do pão eucarístico acontece a revelação do mistério dos longos anos de Jesus em Nazaré: o Deus feito homem, o Deus pequeno, o Deus do nosso tamanho, o Deus ao nosso alcance, o Deus ainda menor do que nós.
A biografia do Irmão Carlos tem como ponto central a mística da vida do Deus encarnado em Nazaré. A sua ansiedade de expressar o seu amor a Jesus o levou a “procurar a mais perfeita imitação de Jesus”. Não a encontrou na vida monástica duma ordem contemplativa. Ele afirma: “Não me sentia pronto para imitar sua vida pública na pregação; devia, portanto, imitar a vida oculta do humilde e pobre operário de Nazaré... voltava-me para Nazaré para viver desconhecido como operário, do meu trabalho diário. Estive quatro anos num... recolhimento abençoado gozando dessa pobreza e dessa abjeção que Deus me tinha feito desejar, tão ardentemente, para imitá-lo ... Faz um ano que fui ordenado sacerdote e estou tomando medidas para poder continuar no Saara a vida oculta de Jesus de Nazaré, não para pregar, mas para viver, na solidão, a pobreza, o humilde trabalho de Jesus procurando o bem das almas, não por meio da palavra, mas pela oração, a oferenda do Santo Sacrifício, a penitência, a prática da caridade.” Você me pergunta como é minha vida: é uma vida de monge missionário baseada neste princípio: imitação da vida oculta de Jesus, em Nazaré.”
“O verbo se fez carne e habitou entre nós” – professamos essa verdade muitas vezes – é o dogma que cremos sem nenhuma restrição. Mas dizer: “imitar a vida oculta de Jesus em Nazaré” parece uma opção particular feita por alguns, mas não necessária para todos. Eu passei por uma lenta transformação na minha própria biografia de sacerdote, que partiu desta afirmação dogmática para uma clareza, descoberta e vivenciada, quase que exclusiva, na sua conseqüência para o meu serviço à igreja, o povo de Deus: por seu Filho Jesus, com sua face humana, Deus me envolveu a mim e os meus irmãos, no mistério da sua encarnação. Não tem alternativa: o seguimento de Jesus tem que começar em Nazaré e voltar sempre a Galiléia.
Na prolongada presença diária diante da eucaristia revela-se, para mim, menos o poder milagroso de Deus na transformação do pão no corpo de Jesus, mas antes o despojamento de Deus na transformação do corpo de Jesus no pão. Muitas vezes fico recolhido no silêncio da madrugada, na igreja vazia, olhando para o pequeno sacrário, no coração a pergunta quase angustiante: Como é possível Deus ser tão pequeno, calado, atrás duma portinha, guardado debaixo duma tampa, um pedacinho de pão, esperando ser comido, ainda mais, às vezes, indignamente? Será possível Deus deixar de ser Deus, Deus ser ”apenas” humano, escondido, discreto, capaz de ser despercebido até pelos que o consomem?
Nazaré e a eucaristia só permitem uma única interpretação: “...ele esvaziou-se e tomou a condição de escravo...”. Nenhum carisma podia ser mais precioso, abrangente e dinâmico do que o mistério de Nazaré assumido por quem quer imitar Jesus. Jesus começou a sua vida na casa de Maria, em Nazaré, e terminou morrendo sendo chamado Nazareno, nome que identificava esta origem e justificava a sua condenação à morte. Irmão Carlos reencontrou o Deus que desaparecera da sua vida, em Nazaré, na sua pequenez, na sua vida insignificante. A conclusão dele não era: este Jesus não pode ser Deus – mas pelo contrário: descobriu que este carpinteiro simples e comum como todos os seus conterrâneos de Nazaré, revela o Deus que nos amou primeiro, apaixonadamente. O carismático Padre Huvelin tinha lhe explicado: “Jesus, em toda sua vida, nunca fez outra coisa senão descer” e também: “Meu Jesus, de tal modo assumistes o último lugar que ninguém pôde jamais arrebatá-lo.” O carisma de Irmão Carlos vem dessas raízes e tornou-se concreto no meio dos Tuaregs, na vida no último lugar, no trabalho com as próprias mãos, na identificação com os pobres num pequeno oásis do Saara, na vontade de ficar desconhecido, no apostolado da vida retalhada em trabalhos e gestos que são os mesmos de todas as pessoas do mundo. Acompanhando Irmão Carlos neste seguimento de Jesus de Nazaré teremos, como ele, as nossas visões cada vez mais claras sobre o único caminho possível para o nosso sacerdócio.
A vida do Padre com os seu paroquianos, que ele chama “o seu rebanho”, aparentemente não suporta os traços da vida escondida de Nazaré. Nessas nossas grandes paróquias do vasto sertão – e não é diferente nas paróquias urbanas gigantescas – desenvolvem-se as mais diversificadas pastorais, prega-se um Deus das verdades reveladas e dos mandamentos a serem observados. Os grandes eventos, a liturgia, a catequese, a chamada “administração” dos sacramentos, com rubricas que tudo determinam para que sejam válidos e lícitos, são organizados dentro da dinâmica duma grande comunidade com seus diversos ministérios, sem falar da administração burocraticamente organizada, com formulários, carimbos, expediente e envolvimento financeiro. Passei longos anos numa das maiores paróquias da diocese. O carisma de Irmão Carlos que me envolveu cada vez mais, nunca me levou a sofrer algum dilema entre realidades irreconciliáveis, nem a angústias e perplexidades. A longa e lenta meditação do mistério do Deus encarnado, pequeno e limitado, nazareno do nascimento até a cruz e ressurreição, pão na mesa dos nossos altares, presente no meio de pobres e fracassados, fez com que o meu sacerdócio e a atuação na minha igreja cada vez mais se adaptassem a este mistério de Nazaré. Ao lado do Irmão Carlos e dos irmãos da Fraternidade, Nazaré apagou bitolas enganosas da minha teologia e da minha ação eclesial. Nazaré com sua radicalidade me chamou a voltar de Jerusalém onde já estava instalado. O Deus ordinário e leigo, mergulhado no mais profano da humanidade,me fez entender o que é libertação que eu mesmo tinha que experimentar antes de testemunhá-la aos irmãos. A descoberta desta radicalidade de Nazaré tornou-se uma luz serena que ilumina sem cessar o meu caminho. Todo dia acrescento aos mistérios comuns do rosário mais um: meditando como Jesus “descia com José e Maria para Nazaré e era lhes submisso”. “Anseio por Nazaré”, dizia Irmão Carlos. Nazaré que significa uma espiritualidade, leva a experiências e evidências surpreendentes.
A visão tradicional do sacerdote-pároco, apesar das transformações das últimas décadas, atribui à sua pessoa destaque, estado social elevado, prestígio, privilégios, liderança. A tentação que isto significa, não dá trégua, desde os tempos dos filhos de Zebedeu. No meio do clero mais novo há muitos exemplos de uma volta a atitudes clericais aparentemente superados. Convivi por alguns tempos com um clérigo jovem que se recusava a viajar no banco de trás do carro, pior em cima da caçamba da camionete, esperando sempre que o assento da frente fosse desocupado para ele. Conheço colegas novos que só viajam com motorista. Muitos fiéis nas paróquias querem o sacerdote que representa o sagrado e sabe ativar os mecanismos do sagrado, que domine e aplique o poder sobrenatural, proporcione até milagres, faça a religião ser eficiente para o proveito deles. Querem um sacerdote que não seja como eles. Querem submeter-se às normas e regras da religião. Não admitem flexibilidade que acolhe os afastados ou mesmo os fora-da-lei. Simplificam para poder classificar e desclassificar. Não saem da sinagoga de Nazaré nem do templo de Jerusalém. Deus só pode ser como essas pessoas imaginam. Elas não acreditam no padre-nazareno que procura seguir Jesus na obscuridade, na humildade, na obediência, pequeno e escondido. Um padre que varre a sua casa, conserta o seu carro, carrega baldes d’água para a sua casa a fim de banhar e lavar o sua louça, é uma pessoa esquisita, não sabe qual é o seu lugar.
O padre que chega a adotar Nazaré como carisma do evangelho por ele anunciado, cada vez mais renuncia ao poder, não o usa mais, nem mesmo quando os melhores da sua comunidade o reclamam “para o bem do povo”. Eu vi a posse de um bispo transferido para uma outra diocese. Na cerimônia, uma criança lhe entregou o báculo, mas antes deitou este báculo, por alguns momentos, no chão e pediu que o bispo viesse, às vezes, sem ele para ser criança com eles. Parece que, até hoje, o bispo não perdoou ao que inventou este gesto incomum. Eu desconfio que toda a nossa mística de sermos pastores, mesmo bons pastores, não considere a palavra de Jesus de precisar apenas de porteiros que abrem a cancela para ele, o único Pastor. Eu me pergunto se Jesus queria pastores-substitutos. Será que estes, fatalmente, não vão usar poder, em nome dele? Nazaré questiona todo poder, mesmo na minha igreja com sua teologia dogmatizada e suas instituições seculares. A permanente celebração e meditação eucarística me dão esta certeza. Nela surge, cada vez mais nítida, a motivação para todas essas atitudes: “O amor imita e obedece” como dizia Irmão Carlos. Os políticos ruins, quando questionados, dizem: você é do contra, só quer me combater. Se nós, em nome do mistério de Nazaré, questionamos as nossas estruturas de poder, não somos “do contra”, mas descobrimos o carisma da paixão de Jesus por Nazaré.
Quando a minha grande paróquia chegou a ser dividida em três, pedi que pudesse ir a uma das novas a ser desmembrada, bem longe, sertão-a-dentro, lugar do “tudo falta” ou “nunca teve”, bem pequeno, extremamente seco, com uma estrutura eclesial que se resumia em raras visitas do sacerdote, com apenas algumas comunidades de base. Uma outra cidade, bem maior, teria que fazer parte desta nova paróquia de periferia. Houve uma revolta grande, nesta cidade, que não aceitava a sede da paróquia ser aquele povoado pequeno. O próprio bispo queria que eu morasse naquele lugar maior. Na minha discussão com ele citei uma palavra do famoso missionário nordestino do século 19, que deixou a sede da arquidiocese de Recife para viver e pregar no meio do povo abandonado do interior, castigado pela seca, explorado pelos políticos corruptos e desclassificado pelas autoridades eclesiais. Dizia o Padre Ibiapina; “Risquei um peque no círculo, dentro dele me meti, para escapar ser lembrado, com cuidado me escondi – No centro da caridade coloquei minha existência, no meu ministério ocupado, cercado pela inocência.”
Consegui mudar-me para este “fim do mundo” que outros chamam “o começo do mundo”. As pessoas perguntaram: “O Senhor agora vai ser eremita?” – outros: “O Senhor vai se aposentar?” Como poderiam entender que eu saía em busca “do último lugar