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Ernanne Pinheiro: A Igreja do Brasil, preparando a Conferencia de Aparecida

 

Virgilio Leite Uchôa: ELEMENTOS PARA REFLETIR A CONJUNTURA

 

Geraldo Gerem: Como viver hoje o carisma do Irmão Carlos

 

Edson Damian: VIVER O CARISMA DE CARLOS DE FOUCAULD HOJE

 

Edson Damian: DESERTO – LUGAR DO ENCONTRO COM DEUS

Günther Lendbradl: Re-inventar com a força do Espírito em nossas culturas e Igrejas o testemunho de Ir. Carlos

 

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Carta do Brasil

 

Saudamos todos os irmãos da Fraternidade Sacerdotal Jesus+Caritas. Somos 34 delegados de 22 países para a IX Assembléia Internacional, em São Paulo, Brasil, nos dias 07 a 22 de novembro de 2006, com o tema: “Re-inventar o testemunho do Irmão Carlos, com a força do Espírito, em nossas culturas e Igrejas”.

 

Longe do barulho da cidade, estamos saboreando a tranqüilidade e o ambiente agradável dos “verdes prados” do Centro Pastoral Santa Fé. Estamos bebendo do poço de nossas experiências de irmãos em Jesus de Nazaré, do testemunho do bem-aventurado irmão Carlos e da pluralidade das nossas experiências de Igreja, de culturas e de nacionalidades.

 

Temos muito a aprender da experiência dos outros, de suas apresentações e intervenções. A partir de uma atitude de abertura, atentos aos relatórios e aos testemunhos de nossos irmãos, nos sentimos interpelados a nos interrogar e a rever nossa própria vida, nosso ministério de presbíteros, diante das dificuldades e esperanças de nosso povo.

 

Vivemos a fraternidade nos moldes já conhecidos: adoração diária e celebração da eucaristia, dia de deserto, partilha da palavra de Deus lida nas escrituras, na história e na experiência de cada um. As diferenças de língua, raça, cultura e idade constituem motivação para maior conhecimento, admiração e respeito aos outros.

 

O Brasil abriu seu coração para nós e nos ajudou a abrir, também nós, os nossos corações e a nossa mente e - com a ajuda de um pouco de samba – a mover nossos corpos. A acolhida e a hospitalidade aqui foram extraordinárias. A fraternidade sacerdotal do Brasil e a equipe de apoio têm nos acompanhado de maneira constante e incansável. As paróquias e as comunidades que visitamos no fim de semana, com as quais partilhamos a vida, nos permitiram experimentar vida em abundância e generosidade. As celebrações da fé são todas alegres, exuberantes e ao mesmo tempo, humildes expressão de uma fé libertadora e espontânea.

 

O Brasil, toda a América Latina e o Caribe estão atentos ao “Grito dos Pobres”, que clamam por solidariedade para questionar e ajudar a mudar as instituições econômicas, políticas e religiosas que oprimem e desfiguram a terra e o rosto dos filhos e filhas de Deus. Este testemunho de nossos irmãos e irmãs, que lutam para estar presentes e caminhar com suas comunidades eclesiais é tão firme como o FIAT de Maria de Nazaré, Nossa Senhora de Aparecida.

 

Tivemos o privilégio de conhecer alguns testemunhos da Igreja que nos chamam a viver o Evangelho e a estar do lado dos pobres. Ouvimos de teólogos latino-americanos, de sacerdotes diocesanos e missionários de origem estrangeira bem como das Irmãzinhas de Jesus a resposta da Igreja ao evangelho, que convida a uma vida fraterna com todos os que o mundo considera últimos, de quem temos muito que aprender.

 

A Europa e a América do Norte gozam de prosperidade material, ao mesmo tempo em que presenciam o crescimento do relativismo e do pluralismo. Diminuem os membros das Congregações, aumenta a idade média do clero, é escasso o número de vocações e escândalos humilhantes lançam sombras e preocupam. Mesmo assim, em muitos lugares, grupos de jovens e adultos buscam a transcendência. O desafio do diálogo com os imigrantes é um forte chamado do Bom Samaritano, hoje, para oferecer apoio e hospitalidade. Como aconteceu com Ir. Carlos, temos muito a aprender do encontro com o Islã, que agora clama às nossas portas.

 

Percebemos em nossos países um grande desejo de relacionamento, de amizade, e de verdadeira fraternidade, porém isto coincide com uma grande tragédia: a pobreza e exclusão material de milhões de pessoas em muitas partes do mundo, acompanhadas, em outras, por um profundo empobrecimento espiritual. Tudo isso prejudica as verdadeiras relações humanas, a abertura e a dignidade. O desejo de ser reconhecido e amado, tão freqüentemente insatisfeito, se reflete no aumento da violência, do aborto, do suicídio e de outras formas de desvios de comportamento. Enquanto isso, os pobres e fracos são empurrados para a marginalidade como acontece tanto aqui no Brasil. Alguns são forçados a viver em condições subumanas, o que torna suas vidas insuportáveis.

 

A influência dos migrantes afeta, atualmente, a maioria dos nossos países. As relações autênticas e a fraternidade são precárias devido à mútua desconfiança. A expansão do Islã em muitos dos nossos países é percebida como um desafio para as religiões estabelecidas. O diálogo em busca de uma mútua compreensão se torna uma tarefa indispensável. Em muitos dos nossos países a população católica está envelhecendo e declinando em número. As Igrejas pentecostais crescem com seu espírito criativo e nos convidam a uma colaboração ecumênica. Algo do espírito do Concílio Vaticano II foi sufocado. Terá sido por causa do medo de um futuro incerto e da falta de fé na presença do Espírito Santo? Ao mesmo tempo, os encargos dos padres aumentaram excessivamente. Estamos assumindo a tarefa messiânica de dar nossa contribuição para resolver os problemas do mundo ou, ao contrário, estamos nos transformando em “sacerdotes da sacristia”, sobrecarregados pelo trabalho e desiludidos?

 

Nossa vida na Fraternidade Sacerdotal é como a experiência dos discípulos no caminho de Emaús. Precisamos partilhar as nossas dificuldades para sentirmos arder o nosso coração. É o que temos experimentado aqui em São Paulo. Jesus de Nazaré, o Deus que armou sua tenda no meio do seu povo, que se ofereceu a si mesmo, até a morte, e ressuscitou, caminha ocultamente conosco dando-nos seu conforto. Ir. Carlos foi seduzido por este Deus, a quem havia abandonado em sua juventude e que reencontrou como amigo. Sua busca de ocupar o último lugar revela-nos um Deus misericordioso que se inclina para amar e reunir todas as suas criaturas.

 

No silêncio da adoração e na fração do pão na Eucaristia encontramos a vida que brota do imenso amor e da fraternidade de Deus, o Absoluto. É aqui que descobrimos todos os nossos irmãos e irmãs como os amados de Deus.

 

Nossa experiência de vida na fraternidade nos tem conduzido à confiança e ao apoio mútuo. Mas além das encruzilhadas e contradições que há dentro de nós mesmos e no mundo ao nosso redor, somos convidados e desafiados a seguir o caminho menos conhecido, o de Jesus de Nazaré, o do Irmão Carlos, o caminho do pobre. Nesta assembléia somos chamados a viver a fraternidade, a ser irmãos, a caminhar com os abatidos e feridos, com os quebrados e traídos pelas falsas promessas de riqueza e poder. Nós precisamos estar presentes no meio deles, que, embora sofram muitas privações, mantêm viva a esperança de salvação em meio ao cotidiano da vida.

 

No ano de 2007, os bispos da América Latina e do Caribe se reunirão em Aparecida, no Brasil, para reviver e reavivar o espírito do Concílio Vaticano II e das Conferências anteriores de Medellín e de Puebla. Nós nos unimos a eles neste caminho de esperança por um novo amanhecer da Igreja e dos pobres da América Latina e, também, certamente, de toda a Igreja. Foi uma alegria, para nós, termos visitado e rezado no santuário de Aparecida, em um dos fins de semana. Lá tivemos um encontro com membros da fraternidade leiga.

 

Nós consideramos a necessidade de renovar nossas próprias raízes na vida em fraternidade e no evangelho. A beatificação do Irmão Carlos, em 2005, abriu sua espiritualidade a toda a Igreja. Isto nos convida a responder à seguinte pergunta: Queremos seguir o caminho do Ir. Carlos em nossa vida de sacerdotes? Precisamos divulgar em nossas fraternidades o valor e a importância do dia de deserto e do mês de Nazaré. Trata-se de algo vital. A beatificação do Ir. Carlos é uma oportunidade para renovar nosso esforço de ir ao encontro de padres jovens em nossas dioceses. Um compromisso mais profundo com o evangelho e com uma vida mais simples é essencial. Isto nos levará a um amor mais forte e presença na vida de nosso povo, especialmente entre os mais pobres.

 

Recordamos nossos irmãos de alguns lugares da Ásia, África, Austrália e Leste Europeu e lamentamos sua ausência, causada por razões diversas.

 

A gratidão é a memória do coração. Agradecemos sinceramente ao Mariano e aos demais membros da Equipe Internacional (equipe que deixa a coordenação) por seu serviço profético na Fraternidade.

 

Pedimos a bênção de Deus para o novo Responsável Internacional, Abraham Apolinário (Republica Dominicana) e sua equipe, José Bizon (Brasil), Richard Reiser (USA) e Eddy Lagae (Bélgica). O futuro está em boas mãos.

 

Finalmente, agradecemos à fraternidade do Brasil, a José Bizon, a toda a equipe de serviço e às pessoas de São Paulo por sua generosidade e maravilhosa hospitalidade.

 

Nós nos abandonamos ao Pai, porque o caminho é longo.

Entregamos o futuro com confiança ao amor de Jesus. Amém.

 

Obrigado.

 

 

 

 

São Paulo, 22 de novembro de 2006.

 

 

* IX Assembléia Internacional da Fraternidade Sacerdotal Jesus+Caritas - 07 a 22/11/2006 *

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Assembléia Internacional

Fraternidade Sacerdotal Jesus-Caritas

06 a 22 de novembro de 2006

São Paulo

Ernanne Pinheiro

 

 

A IGREJA DO BRASIL

PREPARANDO A CONFERÊNCIA DE APARECIDA

 

 

A Igreja Católica no Brasil e no conjunto da América Latina vive um momento de esperança – a perspectiva de que a Conferência de Aparecida retome as grandes opções fundamentais do Concílio Vaticano II. Então, teremos como referenciais irrenunciáveis para a 5a. Conferência: o primado absoluto da Palavra, a afirmação da Igreja como Povo de Deus, a redescoberta da colegialidade eclesial e a presença da Igreja no mundo, em uma relação de diálogo e serviço.

Dentro do método Ver, Julgar e Agir, tentarei apresentar, de forma sintética, as grandes aspirações  da Igreja no Brasil: partindo da realidade como lugar de presença do Espírito e do Reino, detectando os verdadeiros sinais dos tempos, e à luz dos ensinamentos do Magistério, perceber os desafios pastorais e os elementos a serem enfatizados em Aparecida.

 

I.                  SINAIS DOS TEMPOS PARA A IGREJA NO BRASIL E NA AMÉRICA LATINA[1][1]

 

A realidade com suas contradições e disparidades:


           
No campo social verifica-se o crescimento da desigualdade social e o número dos marginalizados preocupa; nota-se o fechamento das pessoas no seu eu, esquecimento de sua natureza relacional; o individualismo levado às extremas conseqüências desumaniza a vida, gera drogados, menores de rua, doentes mentais, mendigos, famílias desorientadas. 

 
            No plano econômico, considera-se mais importante o crescimento da produção em detrimento do crescimento humano. Crescem os sentimentos de eficácia e ganância por melhores resultados, com conseqüências para a dignidade humana.

 

Os interesses sócio-econômicos traduzem a concentração de poder dos que possuem o controle tecnológico e de armamento bélico; provocam o desemprego estrutural.

A causa geradora dessa situação é a injustiça social - a má distribuição da renda que cria uma “ordem” econômica mundial perversa, aprofundando sempre mais o abismo entre ricos e pobres. 

 

Economicamente, não existe mais soberania absoluta, o capital especulativo invade a economia dos países mais frágeis, fragilizando o equilíbrio econômico dos mais fracos. A Amazônia, por exemplo, está na mira de uma internacionalização, por meio da biopirataria. 

            No campo político, durante as campanhas eleitorais, os candidatos manipulam o povo que, mais uma vez, acredita e espera por mudanças. Por falta de esclarecimento das pessoas, conhecimento dos seus direitos, em fim, de cidadania. Os pobres são usados como produto descartável, por falta de uma consciência de cidadania. A democracia social e participativa só dá os primeiros passos.[2][2]

 

            No campo religioso, as ofertas religiosas de hoje buscam uma felicidade fictícia baseada no bem estar e tranqüilidade pessoal sem o compromisso com a ação transformadora à luz do Evangelho. Suas características são, ora o fundamentalismo rígido e o apego a ritos e fórmulas de suas crenças, ditando uma falsa e inescrupulosa “teologia da prosperidade, ora a irresponsabilidade de uma busca e apego por um sentimento religioso light que traga paz, sossego, permissividade, que geralmente se emaranham no sincretismo, sem um compromisso com a verdade e a transcendência. 

 

            Tudo isto num  mundo globalizado que é uma faca de dois gumes, porque seus efeitos dependem do que fizermos com ela. De um lado, vê-se alteração da identidade cultural dos povos, o culto do próprio eu, do dinheiro e do prazer. É o fim da solidariedade, da família, da dignidade da mulher, da heterossexualidade, do casamento e da vida.

 

A ganância que busca o lucro fácil (capital volátil) explorando as regiões de mão-de-obra baratas, a aceleração da movimentação de bens e capital absurdamente desproporcional à movimentação das forças de trabalho (problema da mobilidade humana). 


Em outra perspectiva, a globalização propicia uma acelerada integração entre os povos e os países do mundo, produz um processo de conhecimento da identidade cultural, da natureza e dos grupos humanos que se sentem ameaçadas, criando extensas redes de defesa dos direitos humanos. Em alguns casos possibilitam a união dos povos e nações, atualização e acesso às informações.

 

Em resumo, alguns dos grandes desafios constatados em nossa realidade:

a)      A pobreza crescente e os grandes contrastes;

b)      A violação aos direitos humanos;

c)      A ameaça de um desastre ecológico;

d)      Pluralismo religioso;

e)      A massificação e o anonimato do mundo urbano.

f)        A desagregação familiar

g)      Desagregação familiar

 

II.               BUSCA DE FIDELIDADE AO ESPÍRITO NA RELAÇÃO IGREJA-SOCIEDADE NA AMÉRICA LATINA

 

O parágrafo 4º. da Carta Apostólica do Papa Paulo VI, Octogésima Adveniens, celebrando os 80 anos da Rerum Novarum, nos lembra que ”cabe  às comunidades cristãs analisar, com objetividade, a situação própria do seu país e procurar iluminá-la com a luz das palavras inalteráveis do Evangelho; a elas cumpre haurir princípios de reflexão, normas para julgar e diretrizes para a ação, na doutrina social da Igreja [...] A essas comunidades cristãs incumbe discernir, com a ajuda do Espírito Santo, em comunhão com os bispos responsáveis e em diálogo com os outros irmãos cristãos e com todo os homens de boa vontade – as opções e os compromissos que convém tomar, para realizar as transformações sociais, políticas e econômicas que se apresentam como necessárias e urgentes, em não poucos casos”.

Exatamente nesta missão de co-responsabilidade que a Igreja da América Latina tentou concretizar a recepção do Concílio Vaticano II, de forma criativa, a partir da nossa realidade.

Padre  Henrique Vaz sj, filósofo e pensador do país, tomando consciência de que a Igreja da A.L rompia com laços antigos, batizou este fenômeno de uma passagem de uma Igreja-reflexo para uma Igreja-fonte. Naturalmente, com altos e baixos, com maior autonomia ou  com dependência e submissão.

No momento em que a Igreja no Brasil e em toda a América Latina se prepara para a 5ª. Conferência do Episcopado, em Aparecida[3][3], será importante relembrarmos  as opções básicas das últimas Conferências (Medellin, Puebla, São Domingos). Estas opções contribuíram para colocar em prática a renovação do Vaticano II nas nossas Igrejas locais, ajudando, ao mesmo tempo, à Igreja Universal.

 

A Conferência de Medellín, em 1968

 

Tinha como objetivo refletir sobre a missão da Igreja na atual transformação da América Latina à luz do Concílio Vaticano II. Seus pontos chaves:

 

  1. A  opção preferencial e solidária pelos  pobres

 Embora a formulação “opção pelos pobres”  seja própria de  Puebla, já estava, no entanto, presente em Medellin de várias maneiras.  Lembramos algumas passagens:

 No documento sobre a Pobreza: ”Queremos que a Igreja seja evangelizadora e solidária com os pobres, testemunha do valor dos bens do Reino e humilde servidora de todos os homens de nossos povos. Seus pastores e demais membros do Povo de Deus devem dar à sua vida, suas palavras, atitudes e ação, a coerência necessária com as exigências evangélicas e as necessidades dos latino-americanos” (III, 8). Logo adiante: “Devemos tornar aguda a consciência do dever de solidariedade para com os pobres. Esta solidariedade significará fazer nossos os seus problemas e lutas e saber falar por eles. Isto se concretizará na denuncia da injustiça e opressão, na luta contra a intolerável situação em que se encontra freqüentes vezes o pobre e na disposição de dialogar com os grupos responsáveis por esta situação a fim de fazê-los compreender suas obrigações” (III, 10). Neste contexto, entrou a terminologia libertação, intimamente ligada à opção pelos pobres, numa perspectiva teológica e bíblica.

 

2. Evangelização e a  libertação integral

 Medellin deu uma conotação original a esta opção pelos pobres – seu caráter estrutural. Fala de “opressão estrutural”, “situação de injustiça e de pecado” do continente. Também se refere à  violência institucionalizada.

Ao mesmo tempo, Medellin buscava responder, a partir do Evangelho, ao “surdo clamor que brotava de milhões de pessoas, pedindo s seus pastores uma libertação que não lhe advém de parte algumas”; e repete a palavra de Paulo VI aos camponeses na Colômbia: “agora, nos escutais em silêncio mas ouvimos o grito que sobe de vosso sofrimento” (14, 2).

A mensagem final de Medellin expressa compromissos que serão assumidos por todo o povo de Deus, entre os quais afirma, sem querer substituir os governos,  a busca de “inspirar, estimular e urgir uma nova ordem de justiça que incorpore todos os homens na gestão das próprias comunidades”.

 

3.      As comunidades Eclesiais de Base (CEBs)

A Conferencia de Medellin explicita com insistência a temática das CEBs sob o aspecto eclesiológico, pastoral e social. Uma resposta à concepção da Igreja “comunidade de comunidades”, à evangelização dos pobres como sujeitos da evangelização e da promoção integral. Falando sobre a renovação de estruturas pastorais diz: “A comunidade cristã de base é o primeiro e fundamental núcleo eclesial, que deve, em seu próprio nível, responsabilizar-se pela riqueza e expansão da fé, como também pelo culto que é sua expressão. É ela, portanto, célula inicial de estruturação eclesial e foco de evangelização e atualmente fator primordial de promoção humana e desenvolvimento” ( 15,10).

 

4.      O método da Gaudium et Spes (da JOC) e sua aplicação na A.L.

Tratava-se da leitura dos sinais dos tempos seguindo o ritmo já proposto por João XXIII na Mater et Magistra - Ver, Julgar e Agir -  e assumido na Gaudium et Spes.  No Ver, Medellin se propunha contemplar com os olhos da fé a realidade histórica e social, com a contribuição das ciências sociais. Logo na introdução os bispos refletem: “Não podemos deixar de descobrir nesta vontade, cada vez mais tenaz e apressada de transformação, os vestígios da imagem de Deus no homem, como um potente dinamismo” (n.4).

 

A Conferencia de Puebla em 1979.

 

O contexto já era outro.  A grande pergunta que estava presente: como re-situar Medellin na nova conjuntura política e eclesial da América Latina?

Governos militares em muitos países do continente, sob a ideologia da lei de segurança nacional. Na Igreja, a transição de papas – morte de Paulo VI e João Paulo I e entrada de João Paulo II no Governo da Igreja.

Diante da questão - se Puebla dá continuidade a Medellin -, alguns são mais otimistas, outros mais reservados. Dom Paulo Evaristo Arns dizia: “Medellin batizou uma nova Igreja na América Latina e Puebla crismou”. Já Padre Libãnio, no artigo supracitado, fala de modo menos entusiasta: “a nitidez e a contundência das opções de Medellin receberam no documento de Puebla matizes diversos. Ele enfraqueceu as opções centrais pelos pobres e pela libertação. Deslocou o termo libertação para evangelização libertadora. E desviou o acento para a cultura e para a religiosidade popular”.

 No entanto, não podemos subestimar a leitura espiritual que Puebla faz dos rostos concretos da América Latina quando diz: “Esta situação de extrema pobreza generalizada adquire, na vida real, feições concretíssimas, nas quais deveríamos ver as feições sofredoras de Cristo, o Senhor que nos questiona e interpela (cita as varias feições) (n.31-39)”.

Também acentua a opção pelos jovens, a defesa da dignidade humana...

 

A Conferencia de Santo Domingo, em 1992

 

A Conferencia se reuniu no clima da memória do descobrimento ou conquista das América e dos inícios da evangelização.

Estávamos em plena ebulição neoliberal com novo tipo de pobreza – desemprego, exclusão social. Na Igreja, havia um processo de contestação e de desconfiança da teologia da libertação e crescimento dos movimentos eclesiais, sobretudo a renovação carismática. Ao mesmo tempo, o surgimento de movimentos feministas, ecológicos, pacifistas, anti-racistas e inter-religiosos.

Algumas tendências vieram a tona. No campo social, a problemática social, voltada para a luta contra a injustiça, deslocou-se para a evangelização da cultura moderna.  A proposta da nova Evangelização  carregava ambigüidades; uns a viam como retrocesso, outros achavam que  confirmava a nova evangelização já prevista em Medellin.

Alguns aspectos positivos chamam a atenção em Santo Domingo: a solidariedade latino-americana e mundial, a inculturação, a releitura das novas feições de pobres, a valorização do  papel dos leigos...

III.           DESAFIOS PARA A AÇÃO EVANGELIZADORA EM APARECIDA [4][4]

 

Do material-síntese oferecido pela Igreja do Brasil para Aparecida, detectamos como desafios:

Oriundos do contexto atual

·        Uma leitura do momento cultural atual, a mais próxima possível do real, fugindo da visão virtual, apresentada pelos meios de comunicação.

·        Identificação  dos novos ‘Sinais dos Tempos’, próprios de nosso Continente.

·        O desafio da experiência religiosa hoje, por um lado, eclética e difusa, mercadológica e fragmentada, subjetivista e individualista e, por outro, fundada na liberdade, na gratuidade, no presente e na materialidade da vida.

·        O diálogo da Igreja com o mundo das ciências, em especial com aquelas ligadas à engenharia genética, assumindo uma posição profética diante das novas tecnologias de manipulação da vida.

·        Sensibilidade pastoral para olhar com misericórdia, repletos de compromisso e responsabilidade, as novas situações que nos interpelam.

 De índole eclesial

·        O fenômeno ambíguo das ‘novas comunidades de vida’, em sua autonomia frente às instituições e distância da experiência de vida religiosa tradicional.

·        O direito de todas as comunidades eclesiais terem a celebração eucarística dominical, sobretudo quando 75% de nossas celebrações semanais são sem padre; ligada à questão, está o questionamento à obrigatoriedade do celibato presbiteral.

·        Os problemas do clero no que se refere ao homossexualismo, a abusos sexuais etc.

·        O  empreendimento de esforços para o auto-financiamento da Igreja e de sua pastoral como caminho pedagógico para a comunhão e co-responsabilidade eclesiais.

·         A necessidade de uma linguagem compreensível que fale ao homem e à mulher que sofrem.

·        Redescoberta e recuperação da teologia dos ministérios leigos na compreensão do Vaticano II e das conferências episcopais Latino-americanas.

·        Desafios que permanecem: falta de evangelização, de formação (catequese adulta) e de compromisso vivo. Contentar-se apenas em freqüentar a Igreja ocasionalmente (acomodação) sem uma intimidade profunda com Cristo na comunidade e senso de pertença a um determinado grupo religioso e social.

·        Superação de uma eclesiologia com uma visão tradicional e “jurídica” de paróquia.

·        Atitudes que levem os cristãos à solidariedade, principalmente junto aos mais abandonados e desprotegidos.

·        Uma eclesiologia desligada da cristologia (muita Igreja,  pouco Jesus de Nazaré).

 Em ordem à evangelização

·        A pastoral urbana, que leve a Igreja encarnar-se na cidade e evangelizar, no seio da cultura moderna e pós-moderna, na sociedade do conhecimento.

·        A co-responsabilidade na missão entre a Igreja universal e as Igrejas Locais, no respeito ao princípio da subsidiariedade.

·        A renovação litúrgica e uma liturgia inculturada no universo simbólico dos povos de nosso Continente.

·                    Ação para transformar as grandes massas famintas: de objetos dos programas governamentais neoliberais, em sujeitos de sua própria libertação e desenvolvimento. A opção pelos pobres é mais necessária que nunca.  

·                    O trabalho em defesa dos direitos humanos como tarefa inadiável para a Igreja latino-americana e caribenha. Ela deve levantar a voz para defender aqueles que se calam por serem fracos e indefesos. Por outro lado, a Igreja deve viver em seu interior o que deseja que se viva na sociedade. Quantos abusos de autoridade poder-se-iam evitar ou corrigir.

·                    A terra é um organismo vivo que Deus colocou sob nossa responsabilidade. Deveríamos ter uma aguda consciência ecológica.

·        O diálogo inter-religioso é uma necessidade urgente em nosso continente.

·        O compromisso de agir em defesa da vida em sentido amplo, para que todos tenham vida e vida em abundância (Jo 10,10) e não apenas em relação ao aborto e eutanásia, vem da opção de fé no Cristo e do seu seguimento.

·        Criação de condições para que os cristãos façam a experiência do encontro com Jesus, através da oração pessoal e comunitária, de uma catequese centrada na pessoa de Jesus e da participação na Eucaristia.

·        Destemor diante das grandes causas da América Latina: libertação; opção pelos pobres; relação fé-práxis; unicidade da história de salvação, etc. Fazer que essas causas marquem bem os conteúdos: teologia, escatologia, eclesiologia e missiologia.

 Elementos a serem enfatizados em Aparecida, conforme as bases (no Brasil):

Padre José Ernanne Pinheiro

 

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ELEMENTOS PARA REFLETIR A CONJUNTURA

(Novembro de 2006)

Virgilio

 

I - BALANÇO DE ESPERANÇAS FRUSTRADAS

 

O que se passa hoje no Brasil, na América Latina e Caribe é mais facilmente entendido se levarmos em consideração o que está acontecendo como tendência mundial.

 

A globalização, fruto de imenso progresso tecnológico, traz melhoria tanto sob o aspecto econômico e social como no tocante à vida política e cultural. O problema é que até agora ela é apresentada apenas como liberalização geral da economia, também chamada de neoliberalismo, que pretende deixar a solução dos problemas mundiais exclusivamente nas mãos invisíveis do mercado. Este passa a penetrar todas as dimensões da vida individual e coletiva. As grandes mudanças mostram que há modelos onde o progresso técnico tornou possível, com competência e rapidez, o acesso de muitos ao mínimo necessário à sobrevivência, equilibrando de maneira racional o uso dos benefícios.

 

As decisões, porém, passam cada vez menos pelo crivo democrático da vontade majoritária.   A hegemonia da globalização financeira - intensificada nesses últimos anos e associada ao fluxo especulativo do dinheiro sem fronteiras - reduziu o papel dos estados nacionais e o controle social e democrático sobre o rumo das políticas públicas exercido pelos cidadãos e a sociedade civil organizada.

 

Havia muita expectativa, no início da década de 90, em torno de utopias de bem-estar que, infelizmente, foram dando lugar ao realismo de medidas que visaram a reforçar a hegemonia do dinheiro e do consumo, a enfraquecer os estados nacionais e a favorecer as grandes fusões empresariais. Há na origem de todas as expectativas frustradas um forte componente cultural e político. Esperava-se uma década de distribuição da riqueza, de satisfação das necessidades básicas, de grande desenvolvimento social e progresso tecnológico a serviço de respostas positivas ao bem-estar das pessoas e das sociedades. 

 

As grandes conferências mundiais da Organização das Nações Unidas (ONU), realizadas após a queda do muro de Berlim, expressaram algumas dessas expectativas. As principais foram: “direitos das crianças” (Nova York, 1990); o “meio ambiente” (Rio de Janeiro, 1992); “os direitos humanos” (Viena, 1993); “o crescimento demográfico” (Cairo, 1994); “o desenvolvimento social” (Copenhague, 1996); “os direitos das mulheres” (Pequim, 1995); “o habitat humano” (Istambul, 1996); “a alimentação” (Roma, 1996); “as mudanças climáticas” (Kyoto, 1997).

 

Cada crise financeira internacional tem sido seguida de conseqüências desastrosas do ponto de vista social[5]. Elas provocam desemprego, miséria e violência. As verdadeiras causas dessa instabilidade, no entanto, nunca são efetivamente atacadas pela ordem econômica mundial. Esta, ao contrário, fortalece aquela mesma instabilidade mediante a intocável estratégia da liberalização financeira.

 

 

O Desmonte do estado do bem-estar social

 

O desmonte do estado do bem-estar social tem sido uma conseqüência imediata dessa nova ótica internacional. Assiste-se, pouco a pouco, à passagem para a iniciativa privada da grande massa de recursos financeiros e produtivos. A eficiência e produtividade são as leis fundamentais, provocando grandes fusões de empresas. O que antes era serviço público essencial como educação, saúde, transporte, segurança, acesso à terra, à moradia e outros, passa a ser explorado como atividade comercial, regulamentada e controlada por essa nova ordem, e não como garantia dos  direitos mínimos sociais.

 

A idéia de um estado nacional estava presente nas conquistas dos direitos universais e do bem-estar social, que deveriam ser garantidos a todos. Isso já não acontece diante das novas exigências do atual ciclo histórico do capitalismo, em que prevalecem as leis absolutas do mercado financeiro.

 

 

Cresce a pobreza e concentra-se a riqueza

 

Embora muitos a recusem, vendo nela um mecanismo gerador de pobreza, o mundo vive sob o império da globalização econômica. O projeto neoliberal já há longo tempo comanda a economia, sem alternativas, após a queda do socialismo real. A tendência dos defensores desse tipo de nova ordem é mostrar que a pobreza cresce nos países que não se prepararam para a nova situação do mundo. Explicam que as desigualdades perduram onde permanecem as estruturas onerosas do Estado, com o déficit fiscal crônico, onde não se fizeram as reformas adequadas. Segundo eles, muitos países ficam no meio do caminho nas reformas que preparariam o advento dessa nova ordem.

 

Tudo isso até pode ter pedaços de verdade. Mas, mesmo superadas as crises, permanece inquestionável o fato de que o modelo[6] imposto como hegemônico é profundamente concentrador da riqueza e, conseqüentemente, provoca o aumento da pobreza.

 

As economias nacionais, principalmente as dos países chamados emergentes, são hoje presas fáceis dos capitais que se concentram nas mãos de especuladores de mercado, em que o lucro é o resultado mais importante, sendo raramente aplicado em função da produção e distribuição da riqueza. Há assim uma lógica perversa, sob o império da falta de ética, que corta os investimentos sociais, flexibiliza os direitos trabalhistas, causa a destruição da assistência social como garantia de direitos universais; enfim, que não prioriza a pessoa humana e suas necessidades fundamentais: habitação, saúde, saneamento, educação, segurança, trabalho.

 

É a partir dessa lógica que se deve procurar a causa principal do crescimento da pobreza no mundo. A submissão absoluta do Estado às leis de mercado na verdade é a grande responsável pelo  crescimento da pobreza e das desigualdades na medida em que nada se faz para desencadear uma distribuição das riquezas. “A tirania do dinheiro e da informação está na base do atual desarranjo do capitalismo global[7]. É a partir também da lógica perversa da globalização financeira que se explica a generalizada corrupção que invade inclusive as estruturas políticas, colocando em questão os padrões éticos no trato da coisa pública.

 

Importantes instituições financeiras internacionais tais como o Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial entre outras, até adotam novos discursos e são contrárias à corrupção e a favor do combate à pobreza. Continuam, contudo, exaltando a submissão absoluta às leis do mercado que geram a destruição do bem-estar social e causam essa nova desordem global. Assim tornam-se contraproducentes, quando não hipócritas, as suas receitas anticorrupção, pois o próprio mecanismo de fluxo incontrolado de capitais cria os seus espaços de macrocorrupção - como os ocultos paraísos fiscais - enquanto aquelas receitas atingem apenas os efeitos menores da corrosão ética.

 

 

A Globalização econômica em questão

 

Como se sabe, em Davos, na Suíça, realiza-se anualmente um forum que congrega a fina flor da globalização financeira. É bem verdade que existem expressivas reações a essa globalização. Elas começaram a tomar corpo com as manifestações ocorridas por ocasião da da 3ª Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) - realizada em outubro de 1999 em Seattle, EUA. A 10ª Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento - UNCTAD 10 -, esta realizada em Bangcoc, na Tailândia, entre 12 e 19 de fevereiro de 2000, foi uma espécie de Davos dos pobres. Discutiram-se os efeitos da globalização e pretendeu-se buscar um novo paradigma econômico “definido em dois pontos: voltar a algum tipo de regulamentação das economias, em especial controles sobre o fluxo financeiro de curto prazo, e decidir como tratar comércio e investimentos de tal forma que permitam a inserção dos países em desenvolvimento no mercado internacional”.[8] . No mesmo ano de 2000 em Havana, Cuba, acontece a reunião do chamado Grupo dos 77, com propósitos semelhantes aos da UNCTAD 10.

 

O contraponto à hegemonia da globalização financeira se solidificou com a instalação do “Forum Social Mundial” em 2001, hoje em dia o aglutinador das esperanças de todos os que acreditam que um “outro mundo é possível”. 

 

 

II - O BRASIL NA AMÉRICA LATINA[9]

         Se for pedido a uma amostra de brasileiros, inclusive gente com instrução de nível superior, que tracem de memória o mapa do Brasil, o resultado mais provável é que o litoral corresponda aproximadamente à realidade, mas não as linhas fronteiriças com os vizinhos. De fato, é pequeno nosso conhecimento dos outros povos e países do continente. Neste contexto, a preparação da 5ª Conferência do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), a realizar-se em Aparecida do Note, SP, em maio de 2007, será para o Brasil uma excelente oportunidade de tomada de consciência latino-americana e de busca de um desenvolvimento integral e integrado. Este evento, de natureza eclesial, acabará por beneficiar sobremaneira o esforço da sociedade brasileira em busca do bem-estar, pois hoje não é mais possível um desenvolvimento sem cooperação regional. Tomando como referência as quase três décadas desde a Conferência de Puebla, aparecem no campo da realidade social e política fatos que nos desafiam e merecem atenção.

Realidade Social

         Persiste, no conjunto dos nossos países, a situação de pobreza e miséria, porque persiste a concentração da riqueza, da renda e da terra. A promessa capitalista de que se fosse “aumentado o bolo” ficaria mais fácil reparti-lo não se realizou. O crescimento econômico do pós-guerra até os anos 1970 foi desfeito pela dívida externa e o modelo neoliberal aplicado desde os anos 1980 deu resultados pífios em termos de crescimento econômico, apesar de seu alto custo social (notadamente o desemprego). Daí a persistência, senão o agravamento, da desigualdade social: num pólo, uma diminuta mas poderosa classe empresarial inserida no mercado global (em grande parte pela exportação de produtos primários), no outro uma enorme massa de pessoas sem lugar no mercado, sobrevivendo no subemprego, na economia informal, da assistência social ou mesmo de atividades ilícitas. Entre esses dois pólos, uma camada intermediária formada por diferentes classes sociais da cidade e do campo, algumas inseridas no setor moderno da economia (agricultura, indústria e serviços), outras agregadas aos aparelhos do Estado e ainda outras conservando formas tradicionais de vida, principalmente no campo. Neste contexto, a “opção preferencial pelos pobres”, que agora compreende também e principalmente os excluídos do mercado, é ainda mais atual do que foi no século passado.

         Conseqüência visível dessa desigualdade é o crescimento da violência, principalmente nas cidades e nas zonas onde atua o narcotráfico. Os índices de mortalidade entre os jovens atingem tais níveis que seus efeitos já podem ser percebidos em estudos demográficos. Tais pessoas são mais vítimas do que agentes da violência, mas são elas que amedrontam a sociedade com sua contracultura de contestação. Também aqui se aplica, com enorme pertinência, a “opção pelos jovens” feita em Puebla.

Também em conseqüência da situação de desigualdade, cresce a migração, principalmente de jovens, para a América do Norte e Europa. Embora muito úteis para desempenharem funções econômicas pouco ou não-qualificadas, esses e essas migrantes são socialmente discriminados e têm sua vida seriamente ameaçada: só em 2005, 464 pessoas perderam a vida tentando atravessar a fronteira entre os EUA e o México, grande parte no deserto do Arizona. Para evitar sua entrada, o governo dos EUA quer construir o novo “muro da vergonha”, de modo a separar o rico norte do sul empobrecido. A face mais cruel desse processo migratório é o tráfico de mulheres e crianças, iludidas ou forçadas a deixarem sua terra para satisfazerem o apetite sexual de pessoas frustradas. O tráfico de pessoas, no sentido mais amplo, é o 3º negócio mais rentável do mundo (só perde para as armas e drogas). Isso provoca a fragmentação dos valores familiares que estão na base de nossa cultura. Pesquisas mostram que não se trata tanto de perda de valores, mas sobretudo da fragilidade das famílias ou das pessoas para resistirem às investidas do mercado que lhes promete todo tipo de vantagens materiais. Por serem as famílias atingidas em sua integridade, ganha muita atualidade a “opção pela família”.

         Não podemos, contudo, deixar de ver que, ao lado dessas realidades tenebrosas, há também realidades luminosas em Nossa América, pois estão crescendo em volume e em qualidade as reações da sociedade contra a secular situação de injustiça e desigualdade. Sob a forma genérica de movimentos sociais e populares, multiplicam-se as organizações que trazem propostas alternativas. A mais visível é, certamente, o Forum Social Mundial, que não por acaso tomou forma na América Latina, anunciando para os demais povos que “outro mundo é possível”. Não é ele, porém, o único sinal de vitalidade de nossos povos: movimentos de povos indígenas, de camponeses, de mulheres, de negros e de tantos outros grupos estão construindo novas formas de economia solidária, de mobilizações pela Paz e por Direitos Humanos, enfim, reavivam a esperança de um mundo mais justo, democrático e pacífico. Cabe acrescentar que a Igreja tem sido parceira - e muitas vezes também a parteira - desses movimentos e organizações na busca de uma “civilização do amor”.

Cultura

         Os estados nacionais têm como matriz cultural uma herança colonial de difícil superação: a valorização exacerbada do que vem de fora (principalmente dos EUA e Europa), em detrimento da cultura, história, tradição nacional e latino-americana. Tal matriz cultural foi agravada pela experiência escravista ou servil vivida pela maioria dos nossos países, gerando o preconceito racial contra afrodescendentes e indígenas. Em vários países, porém, assistimos a movimentos indígenas em busca de reconhecimento de sua identidade, reivindicando reparação pelo uso de suas terras. Povos do México, Equador, Bolívia, Guatemala, Peru e Brasil têm muitas experiências positivas neste campo. Também movimentos contra o preconceito a afrodescendentes têm crescido e em alguns países – como Cuba e Brasil – importantes passos foram dados no sentido de sua superação. Assim, a cultura latino-americana e caribenha tem suas bases latinas e cristãs enriquecidas pela contribuição de outros povos e tradições.

Política e economia

         No pano de fundo de toda análise da realidade atual precisa estar a memória do projeto colonial: nossos países foram formados para serem economicamente explorados pela metrópole. Este foi o escopo do mercantilismo que marcou o império português e espanhol dos séculos 16 a 18 e também do capitalismo de mercado que tomou seu lugar desde o século 19, sem contudo eliminar todas as formas de trabalho escravo e servil. Nossos povos ainda não se libertaram inteiramente daquela situação subalterna e continuam na periferia do sistema econômico mundial. No entanto,  hoje percebemos fatos muito significativos no processo de emancipação nacional e de desenvolvimento social e econômico, tais como:

·        Emergência dos pobres, principalmente operários e indígenas, cuja participação na política nunca havia ido além do papel de atores coadjuvantes no cenário político. Nos dois últimos decênios do século 20 deram importante contribuição ao processo de derrubada dos regimes militares que oprimiam nossos países, contribuindo para a redemocratização. E, neste início de século, estão trazendo para as instâncias mais altas de governo um projeto nascido dos setores populares.

·        Nova consciência de ética na política, diante de sistemas políticos baseados na corrupção, no clientelismo e que sempre asseguraram aos poderosos a certeza da impunidade. Essa consciência se expressa em mobilizações sociais que vêm ganhando vulto cada vez maior. Um exemplo disso é a revisão das leis que impediam a apuração de tortura e outras violações aos direitos humanos cometidas por militares.

·        A falência da economia argentina expôs o fracasso do neoliberalismo na América Latina e motivou uma virada de vários países para propostas de centro-esquerda: a própria Argentina, Venezuela, Brasil, Uruguai, Chile e Bolívia. Essa reconfiguração do panorama político motivou a busca de outro modelo de integração latino-americana. Seu primeiro efeito foi a desarticulação da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), com a conseqüente pressão dos Estados Unidos para que os países mais dependentes assinem o TLC (Tratado de Livre Comércio), cujas cláusulas são mais desfavoráveis ao seu desenvolvimento.

·        Diante da globalização da economia, aumenta o número de países que buscam a integração da economia regional, para juntos saírem de uma posição periférica e, em bloco, participarem do comércio mundial em situação de paridade. O Mercado Comum do Cone Sul (Mercosul) é um desses sinais de uma política econômica regional capaz de romper os antigos vínculos de submissão de nossas economias aos interesses dos EUA.

Cabe aqui a informação de que o Senado Federal aprovou no dia 12/09/06 a criação e implantação do Parlamento do MERCOSUL, já aprovado pela Câmara dos Deputados. Seu Protocolo foi assinado pelos governos da Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai e espera ratificação dos parlamentos desses países para a sua instalação. A expectativa é que o Parlamento do Mercosul seja inaugurado em novembro deste ano, devendo aumentar a transparência e sintonizar as posições políticas das sociedades dos países do Bloco. A sessão inaugural na data prevista ocorrerá em um momento de ajuste no Mercosul, que recebeu a adesão da Venezuela e o possível ingresso do Chile e Bolívia, mas enfrenta as críticas dos sócios menores - Uruguai e Paraguai - que anunciaram sua intenção de buscar acordos de livre comércio com os Estados Unidos.

Ecologia

         Foi despertada a consciência de que somos responsáveis pela vida do Planeta, hoje ameaçada. O movimento ecológico, que nos anos 1980 era pouco mais que uma curiosidade, ganhou vulto e já é hoje um fator de peso nas decisões políticas. A esta consciência social contrapõe-se a economia de mercado, que não considera os direitos da Terra quando se trata de contabilizar lucros. Sua hegemonia coloca em risco a própria vida na Terra, pois o mercado insiste em ultrapassar os limites dos recursos renováveis, não tendo em conta que a vida do Planeta deve ser o parâmetro do desenvolvimento econômico.

      Uma conseqüência desta nova consciência ecológica é o início de um movimento de âmbito regional em defesa da Amazônia e do Pantanal, cujas bacias atingem quase todos os países da América do Sul. A defesa destas duas bacias e de seus ecossistemas, impondo projetos de desenvolvimento ecologicamente sustentáveis, tende a ser uma das bandeiras capazes de unir todo o continente.

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III - A BUSCA DA IDENTIDADE LATINO-AMERICANA

 

O processo de globalização, na sua vertente política e neoliberal, não atingiu da mesma forma os países centrais e os países periféricos, como os da América Latina: os “países centrais, propulsores do modelo, são os mais reticentes em aceitá-lo por inteiro, enquanto que a América Latina mostrou-se mais uma vez um continente aberto” [10]. 

     

      Hoje se busca descobrir as razões que levam países, com maior ou menor grau de dificuldades econômicas e imensos problemas sociais, como o Brasil, a Argentina, o Equador, Chile, Paraguai, Bolívia, Venezuela e outros a enfrentar a hegemonia neoliberal que impede a construção da identidade nacional.

 

Tudo indica que o modelo neoliberal implantado na América Latina muito dificulta projetos nacionais autônomos e socialmente avançados. As grandes revoluções acontecidas na Europa - desde a Revolução Francesa, passando pelo Iluminismo e a Revolução Industrial - aqui chegaram tardiamente ou não chegaram. As mudanças provocadas pelas revoluções colocaram as bases para a existência dos estados nacionais no velho continente.

     

      Há, entre nós latino-americanos sinais de mudança e questionamento do modelo que privilegia o econômico sobre o social. São atitudes de governo, personagens e mobilizações populares que questionam, na prática, o modelo neoliberal. Dependendo da situação em cada país, tais sinais são distintos, porém convergentes. A Venezuela e Bolívia buscam novos caminhos, com forte apoio popular, nacionalista e populista. A eleição de Lula no Brasil em 2002 despertou grandes esperanças, muitas delas frustradas. 

     

      A sua esmagadora reeleição em 2006 consagra a social democracia como esforço preliminar, ainda que incompleto, de democratização e distribuição de renda capilar entre as bases populares e classe média ascendente. Isso criou uma fissura nas velhas oligarquias políticas, a elite detentora de poder e beneficiária da riqueza concentrada.

     

      A fixação popular na identidade do presidente reeleito como “um dos nossos” solidificou um tipo inusitado voto de confiança, apesar de todas as contradições da sua base de sustentação política e denúncias de corrupção.     O grande alcance popular da figura pessoal de Lula, os pequenos e acertados projetos sociais do seu governo promoveram, na prática, um início de revolução popular expressa na magnitude dos votos com que foi reeleito presidente da república.

     

      Garantida a estabilidade econômica no Brasil e com ela uma base popular que deu um salto de qualidade na superação da pobreza, resta ainda o grande desafio de um projeto de nação a ser construído, de modo sustentável, com a participação de todos e com a feição dos que emergem da pobreza e da exclusão.     

 

O Brasil aparece no cenário latino-americano e caribenho como sinal de esperança pela sua natural presença geográfica como fator de influência, no bom sentido, para ajudar o conjunto a crescer em projetos nacionais interligados. Além disso, configura-se entre todos os países a consciência de que é urgente fortalecer os projetos nacionais voltados à superação do substrato colonialista.

 

Há sinais evidentes de que as pequenas lutas e as ações desenvolvidas por políticas públicas dos governantes têm ajudado a fortalecer a construção de um novo momento da nossa história. A superação da miséria, da pobreza, das discriminações, o fortalecimento dos direitos universais e inalienáveis, a preservação do meio ambiente e da riqueza nacional deixam de ser apenas sonhos e se concretizam de maneira democrática e acessível pela participação popular.  

 

Neste contexto a 5ª Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano emerge como sinal profético de compromisso, de vida e de esperança para América Latina e Caribe.

 

 

Pe. Virgílio Leite Uchôa

(organizador)

 

 

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“Como viver hoje o carisma do Irmão Carlos”

Padre Geraldo Gerem

 

            “Pergunta-me se estou disposto a ir mais longe do que Beni-Abbés para difundir o santo Evangelho; para isso, estou disposto a ir ao fim do mundo e a viver até o Juízo final.”

 

            Essa palavra do Irmão Carlos, muitas vezes citada, encontra o seu reflexo na abertura do diretório da nossa “Fraternidade Sacerdotal Jesus+Caritas”: “Na realidade, é por causa de Jesus e de seu evangelho que nós nos encontramos”. “Sacerdotes diocesanos... somos responsáveis pelo anúncio do Evangelho ... somos impelidos pelo Evangelho.” Toda reflexão sobre a nossa espiritualidade característica a ser avaliada, redefinida, novamente assumida com alegria e dinamismo recarregado, tem essa única razão: nós somos apaixonados pelo evangelho: por aquele que fez da sua experiência com Deus uma Boa Nova anunciada e queria depender de seguidores que lhe abrem os caminhos e as porteiras para a sua eterna busca de todos os pequenos e perdidos deste mundo.

 

            As duas palavras “Jesus+Caritas” desenhadas em torno do coração, no qual é implantada a cruz -

ou não seria antes a cruz que nasce deste coração? – identificam a nossa Fraternidade. Charles de Foucauld, o nosso irmão Carlos, expressou nesse conjunto de duas palavras com o esboço simbólico da cruz, o conjunto das suas inspirações, experiências e programações. Jesus e seu evangelho fazem ele exclamar: “Não posso suportar viver outra vida que não seja a sua.”

 

            Irmão Carlos foi beatificado no ano passado. Mais razão ainda teríamos nós de olhar esta vida de um santo tão rica em exemplos inspiradores, como também ouvir as suas mensagens transmitidas numa verdadeira biblioteca de escritos deixados para os que querem acompanhá-lo no seu caminho evangelizador. Mas o mesmo Irmão Carlos diz: “Olhemos os santos não para imitá-los, mas para imitar Jesus.” Então, querido Irmão Carlos: como poderíamos enxergar na longa e enleada trajetória da sua vida aquilo que nos remete ao seu Bem-Amado?

 

            Irmão Carlos, talvez, apontaria para um texto que ele lia, relia e, sem cessar, encontrava coisas novas: “O Espírito Santo... fez aparecer Jesus Cristo no mundo ... Ele já não escreve evangelhos senão nos corações: todas as ações, todas as vivências dos santos são o evangelho do Espírito Santo ... Ele escreve um evangelho vivo no presente, saído das impressoras da vida.”

 

            Com outras palavras: Irmão Carlos convida-nos a descobrir, também nele, o impulso do Espírito Santo, o carisma gratuitamente recebido: esse carisma recebido “o leva a imitação de Jesus, seu Bem-amado Senhor e Irmão, nele se dirige ao Pai, e a partir dele se dirige aos irmãos”. O carisma, o dom do Espírito Santo que Irmão Carlos recebeu, é este evangelho vivo para nós, que como dele fez, de nós fará amigos de Jesus, discípulos amados e evangelizadores. Estamos aqui, convocados pelo Espírito Santo. “Quem tem ouvidos, escute o que o Espírito Santo diz às igrejas”(Apc. 2).

 

            Irmão Carlos não agregou, como São Francisco, dentro de pouco tempo, uma multidão de companheiros/irmãos que seguiram às regras do “santo fundador”, devidamente aprovadas pela autoridade romana. Irmão Carlos era como um viajante noturno procurando, no deserto, acertar o rumo da caminhada por onde não havia  caminhos bitolados e nem companheiros de viagem. Mas ele deixou rastros nessa corajosa travessia. Nós da família do Irmão Carlos e, como ele, sacerdotes diocesanos, deixando-nos orientar por estes rastros, percebemos que não somos multidão que arrasta. Somos alguns poucos que, às vezes, duvidamos se somos pioneiros da linha de frente, ou aventureiros atrasados em estradas laterais. Mas temos uma alegre certeza: esse caminho com Irmão Carlos é o caminho do Filho de Deus feito homem em busca de seus irmãos amados pelo Pai. O carisma, dom do Espírito Santo, adquire,  em cada um de nós, contornos inconfundíveis para alcançar essa única finalidade: andar, á frente de Jesus “para todos os lugares para onde pensava ir” (Luc.10,1)

 

            À luz do carisma de Irmão Carlos, eu gostaria de tentar um testemunho sobre os carismas do Espírito Santo que se manifestaram na minha própria trajetória sacerdotal, durante as quatro décadas nas veredas do grande sertão nordestino brasileiro. Vivo no meio de um povo carente, sofredor, abandonado, sem perspectiva de transformação, enganado e manipulado pelos seus líderes, mal compreendido no seu estágio cultural e sociológico, vítima de vícios seculares, no entanto, corajoso e resistente, mais conscientizado do que se pensa, com grande percepção do que se revela nas entrelinhas, submetendo-se à lógica da pobreza e, ao mesmo tempo, capaz de esperança e otimismo. A sua prática de fé cristã parece bastante ambígua: muitas vezes é pura e autêntica, muito mais do que a minha; mas, às vezes, também parece pouco iluminada, desvirtuada, mutilada, resistente à proposta de sair do mundo das crenças para a prática libertadora da intimidade com o Pai amoroso de Jesus Cristo.

 

            Cheguei, nestes longos anos, no meio do povo sertanejo, a um recuo reverencial cada vez mais acentuado: diante da realidade, que ainda não entendi; diante da minha incapacidade de perceber a ação do Espírito de Deus lá onde, nos moldes oficiais da religião, não é admitida; diante da multiforme cadeia de causas para hábitos e posturas facilmente interpretadas  por preconceitos superficiais. Quanto mais conheço o meu povo, mais percebo que não o conheço, mais o devo conhecer. Descobri que é preciso conhecer para poder amar, um conhecimento que não é nenhum levantamento científico, mas uma humilde aproximação de amor e compaixão.

 

            Nunca teria avançado nesta direção sem o que a nossa Fraternidade chama “a regular e prolongada adoração eucarística”. Na mais agitada vida paroquial consigo passar sempre os primeiros momentos do dia diante do sacrário. O pároco das nossas grandes paróquias onde a maioria dos paroquianos não tem a oportunidade da eucaristia semanal, celebra a missa freqüentemente, com as diversas comunidades e em inúmeras comemorações. Ele faz todo esforço de celebrar dentro do sentido litúrgico e na dinâmica popular e participativa. Ele chama e envolve a comunidade. Mas a silenciosa, solitária e prolongada presença diante da hóstia consagrada no sacrário, fora do momento da celebração, é um aspecto complementar no mesmo e único objetivo da eucaristia: Jesus se torna o nosso alimento. Persistindo na meditação, contemplativos nas atividades envolventes do nosso dia a dia, nós evangelizadores somos evangelizados pela boa nova do Deus encarnado.

 

            Na meditação silenciosa diante do pão eucarístico acontece a revelação do mistério dos longos anos de Jesus em Nazaré: o Deus feito homem, o Deus pequeno, o Deus do  nosso tamanho, o Deus ao  nosso alcance, o Deus ainda menor do que nós.

 

            A biografia do Irmão Carlos tem como ponto central a mística da vida do Deus encarnado em Nazaré. A sua ansiedade de expressar  o seu amor a Jesus o levou a “procurar a mais perfeita imitação de Jesus”. Não a encontrou na vida monástica duma ordem contemplativa. Ele afirma: “Não me sentia pronto para imitar sua vida pública na pregação; devia, portanto, imitar a vida oculta do humilde e pobre operário de Nazaré... voltava-me para Nazaré para viver desconhecido como operário, do meu trabalho diário. Estive quatro anos num... recolhimento abençoado gozando dessa pobreza e dessa abjeção que Deus me tinha feito desejar, tão ardentemente, para imitá-lo ... Faz um ano que fui ordenado sacerdote e estou tomando medidas para poder continuar no Saara a vida oculta de Jesus de Nazaré, não para pregar, mas para viver, na solidão, a pobreza, o humilde trabalho de Jesus procurando o bem das almas, não por meio da palavra, mas pela oração, a oferenda do Santo Sacrifício, a penitência, a prática da caridade.” Você  me pergunta como é minha vida: é uma vida de monge missionário baseada neste princípio: imitação da vida oculta de Jesus, em Nazaré.

 

            “O verbo se fez carne e habitou entre nós” –  professamos essa verdade muitas vezes – é o dogma que cremos sem nenhuma restrição. Mas dizer: “imitar a vida oculta de Jesus em Nazaré” parece uma opção particular feita por alguns, mas não necessária para todos. Eu passei por uma lenta transformação na minha própria biografia de sacerdote, que partiu desta afirmação dogmática para uma clareza, descoberta e vivenciada, quase que exclusiva, na sua conseqüência para o meu serviço à igreja, o povo de Deus: por seu Filho Jesus, com sua face humana, Deus me envolveu a mim e os meus irmãos, no mistério da sua encarnação. Não tem alternativa: o seguimento de Jesus tem que começar em Nazaré e voltar sempre a Galiléia.

 

            Na prolongada presença diária diante da eucaristia revela-se, para mim, menos o poder milagroso de Deus na transformação do pão no corpo de Jesus, mas antes o despojamento de Deus na transformação do corpo de Jesus no pão. Muitas vezes fico recolhido no silêncio da madrugada, na igreja vazia, olhando para o pequeno sacrário, no coração a pergunta quase angustiante: Como é possível Deus ser tão pequeno, calado, atrás duma portinha, guardado debaixo duma tampa, um pedacinho de pão, esperando ser comido, ainda mais, às vezes, indignamente? Será possível Deus deixar de ser Deus, Deus ser ”apenas” humano, escondido, discreto, capaz de ser despercebido até pelos que o consomem?

 

            Nazaré e a eucaristia só permitem uma única interpretação: “...ele esvaziou-se e tomou a condição de escravo...”. Nenhum carisma podia ser mais precioso, abrangente e dinâmico do que o mistério de Nazaré assumido por quem quer imitar Jesus. Jesus começou a sua vida na casa de Maria, em Nazaré, e terminou morrendo sendo chamado Nazareno, nome que identificava esta origem e justificava a sua condenação à morte. Irmão Carlos reencontrou o Deus que desaparecera da sua vida, em Nazaré, na sua pequenez, na sua vida insignificante. A conclusão dele não era: este Jesus não pode ser Deus – mas pelo contrário: descobriu que este carpinteiro simples e comum como todos os seus conterrâneos de Nazaré, revela o Deus que nos amou primeiro, apaixonadamente. O carismático Padre Huvelin tinha lhe explicado: “Jesus, em toda sua vida, nunca fez outra coisa senão descer” e também: “Meu Jesus, de tal modo assumistes o último lugar que ninguém pôde jamais arrebatá-lo.” O carisma de Irmão Carlos vem dessas raízes e tornou-se concreto no meio dos Tuaregs, na vida no último lugar, no trabalho com as próprias mãos, na identificação com os pobres num pequeno oásis do Saara, na vontade de ficar desconhecido, no apostolado da vida retalhada em trabalhos e gestos que são os mesmos de todas as pessoas do mundo. Acompanhando Irmão Carlos neste seguimento de Jesus de Nazaré teremos, como ele, as nossas visões cada vez mais claras sobre o único caminho possível para o nosso sacerdócio.

 

            A vida do Padre com os seu paroquianos, que ele chama “o seu rebanho”, aparentemente não suporta os traços da vida escondida de Nazaré. Nessas nossas grandes paróquias do vasto sertão – e não é diferente nas paróquias urbanas gigantescas – desenvolvem-se as mais diversificadas pastorais, prega-se um Deus das verdades reveladas e dos mandamentos a serem observados. Os grandes eventos, a liturgia, a catequese, a chamada “administração” dos sacramentos, com rubricas que tudo determinam para que sejam válidos e lícitos, são organizados dentro da dinâmica duma grande comunidade com seus diversos ministérios, sem falar da administração burocraticamente organizada, com formulários, carimbos, expediente e envolvimento financeiro. Passei longos anos numa das maiores paróquias da diocese. O carisma de Irmão Carlos que me envolveu cada vez mais, nunca me levou a sofrer algum dilema entre realidades irreconciliáveis, nem a angústias e perplexidades. A longa e lenta meditação do mistério do Deus encarnado, pequeno e limitado, nazareno do nascimento até a cruz e ressurreição, pão na mesa dos nossos altares, presente no meio de pobres e fracassados, fez com que o meu sacerdócio e a atuação na minha igreja cada vez mais se adaptassem a este mistério de Nazaré. Ao lado do Irmão Carlos e dos irmãos da Fraternidade, Nazaré apagou bitolas enganosas da minha teologia e da minha ação eclesial. Nazaré com sua radicalidade me chamou a voltar de Jerusalém onde já estava instalado. O Deus ordinário e leigo, mergulhado no mais profano da humanidade,me fez entender o que é libertação que eu mesmo tinha que experimentar antes de testemunhá-la aos irmãos. A descoberta desta radicalidade de Nazaré tornou-se uma luz serena que ilumina sem cessar o meu caminho. Todo dia acrescento aos mistérios comuns do rosário mais um: meditando como Jesus “descia com José e Maria para Nazaré e era lhes submisso”. “Anseio por Nazaré”, dizia Irmão Carlos. Nazaré que significa uma espiritualidade, leva a experiências e evidências surpreendentes.

 

            A visão tradicional do sacerdote-pároco, apesar das transformações das últimas décadas, atribui  à sua pessoa destaque, estado social elevado, prestígio, privilégios, liderança. A tentação que isto significa, não dá trégua, desde os tempos dos filhos de Zebedeu. No meio do clero mais novo há muitos exemplos de uma volta a atitudes clericais aparentemente superados. Convivi por alguns tempos com um clérigo jovem que se recusava a viajar no banco de trás do carro, pior em cima da caçamba da camionete, esperando sempre que o assento da frente fosse desocupado para ele. Conheço colegas novos que só viajam com motorista. Muitos fiéis nas paróquias querem o sacerdote que representa o sagrado e sabe ativar os mecanismos do sagrado, que domine e aplique o poder sobrenatural, proporcione até milagres, faça a religião ser eficiente para o proveito deles. Querem um sacerdote que não seja como eles. Querem submeter-se às normas e regras da religião. Não admitem flexibilidade que acolhe os afastados ou mesmo os fora-da-lei. Simplificam para poder classificar e desclassificar. Não saem da sinagoga de Nazaré nem do templo de Jerusalém. Deus só pode ser como essas pessoas imaginam. Elas não acreditam  no padre-nazareno que procura seguir Jesus na obscuridade, na humildade, na obediência, pequeno e escondido. Um padre que varre a sua casa, conserta o seu carro, carrega baldes d’água para a sua casa a fim de banhar e lavar o sua louça, é uma pessoa esquisita, não sabe qual é o seu lugar.

 

 O padre que chega a adotar Nazaré como carisma do evangelho por ele anunciado, cada vez mais renuncia ao poder, não o usa mais, nem mesmo quando os melhores da sua comunidade o reclamam “para o bem do povo”. Eu vi a posse de um bispo transferido para uma outra diocese. Na cerimônia, uma criança lhe entregou o báculo, mas antes deitou este báculo, por alguns momentos, no chão e pediu que o bispo viesse, às vezes, sem ele para ser criança com eles. Parece que, até hoje, o bispo não perdoou ao que inventou este gesto incomum. Eu desconfio que toda a nossa mística de sermos pastores, mesmo bons pastores, não considere a palavra de Jesus de precisar apenas de porteiros que abrem a cancela para ele, o único Pastor. Eu me pergunto se Jesus queria pastores-substitutos. Será que estes, fatalmente, não vão usar poder, em nome dele? Nazaré questiona todo poder, mesmo na minha igreja com sua teologia dogmatizada e suas instituições seculares. A permanente celebração e meditação eucarística me dão esta certeza. Nela surge, cada vez mais nítida, a motivação para todas essas atitudes: “O amor imita e obedece” como dizia Irmão Carlos. Os políticos ruins, quando questionados, dizem: você é do contra, só quer me combater. Se nós, em nome do mistério de Nazaré, questionamos as nossas estruturas de poder, não somos “do contra”, mas descobrimos o carisma da paixão de Jesus por Nazaré.

 

Quando a minha grande paróquia chegou a ser dividida em três, pedi que pudesse ir a uma das novas a ser desmembrada, bem longe, sertão-a-dentro, lugar do “tudo falta” ou “nunca teve”, bem pequeno, extremamente seco, com uma estrutura eclesial que se resumia em raras visitas do sacerdote, com apenas algumas comunidades de base. Uma outra cidade, bem maior, teria que fazer parte desta nova paróquia de periferia. Houve uma revolta grande, nesta cidade, que não aceitava a sede da paróquia ser aquele povoado pequeno. O próprio bispo queria que eu morasse naquele lugar maior. Na minha discussão com ele citei uma palavra do famoso missionário nordestino do século 19, que deixou a sede da arquidiocese de Recife para viver e pregar no meio do povo abandonado do interior, castigado pela seca, explorado pelos políticos corruptos e desclassificado pelas autoridades eclesiais. Dizia o Padre Ibiapina; “Risquei um peque no círculo, dentro dele me meti, para escapar ser lembrado, com cuidado me escondi – No centro da caridade coloquei minha existência, no meu ministério ocupado, cercado pela inocência.”

 

Consegui mudar-me para este “fim do mundo” que outros chamam “o começo do mundo”. As pessoas perguntaram: “O Senhor agora vai ser eremita?” – outros: “O Senhor vai se aposentar?” Como poderiam entender que eu saía em busca “do último lugar”? Eu acho importante que as opções e posturas que assumimos revelem as motivações que nos levam a essas atitudes. Seria pena, se para o nosso povo fôssemos apenas uns “esquisitões”. Teremos de inspirar-nos novamente no carisma do Irmão Carlos que disse; “Toda a nossa vida, por mais silenciosa que seja, ... deve ser uma pregação do evangelho pelo exemplo ... deve gritar o evangelho pelos telhados, deve transparecer Jesus.”

 

No entanto, o próprio Irmão Carlos não tem o evangelho  a ser anunciado como uma doutrina de verdades eternas. O mesmo mistério de Nazaré mostra que o evangelho vivo de Jesus é a sua presença solidária no meio do seu povo, a causa assumida dos oprimidos e desclassificados da Galiléia. Irmão Carlos, na sua ansiedade por Nazaré, conclui: “...devemos nos voltar especialmente para os miseráveis, para todos os que o mundo esquece, despreza, exclui: os pobres, os pequenos, os sofredores, os ignorantes, porque tem mais necessidade e menos recursos”.

 

Na minha longa vida no sertão nordestino, sempre experimentei as calamidades deste povo, seu eterno sofrimento, sua pobreza crônica, o seu abandono. Desde o começo fiz da minha missão evangelizadora um compromisso com os mais pobres. Achei sempre que a famosa “opção preferencial pelos pobres” não nos deixaria livres para fazermos ou não esta opção. Na verdade, foi Deus que fez esta opção. Para nós, não tem mais opção, a opção de Deus tem que ser a nossa. Essa nossa opção claramente é conseqüência da opção de Deus por Nazaré. O Filho de Deus feito homem não criou um grandioso sistema de assistência social para os pobres de todos os tempos ou, como dizem os políticos, “para erradicar a pobreza do mundo”. Ele se fez pobre para, com os pobres, iniciar o caminho da libertação deles. Irmão Carlos, na sua percepção segura, a partir da permanente contemplação do mistério de Nazaré e do mistério da eucaristia, chegou a esta dupla intuição a respeito dos pobres: primeiro toda a sua ternura para com os pobres que ele acolhia e assistia com bondade – atitude que ele queria que fosse um sinal da infinita bondade de Deus para com os seus filhos. Essa intimidade com os pobres nascia da sua intimidade com Jesus. Dele os pobres são irmãos, bem-amados como o próprio Jesus. Irmão Carlos fez desta sua identificação com os pobres uma preocupação muito concreta: usou toda a sua criatividade para encaminhar estes pobres a processos de transformação capazes de superar a pobreza: instrução básica sistemática, valorização do trabalho, incentivos para  agricultura, pecuária e pequenas atividades industriais, comercialização eficiente dos produtos locais, enfim uma promoção de nômades totalmente vulneráveis pelas intempéries geográficas, climáticas e sócio-políticas.

 

            O carisma de Irmão Carlos tornou-se, mais uma vez, inspirador para nós. Somos da igreja de todos os tempos que nunca deixou de amar com ternura e compaixão os pobres, irmãos de Jesus, e sempre desenvolveu intensa atividade caritativa. Essa longa experiência, porém, deve levar-nos a uma conclusão esclarecedora: não é suficiente trabalhar para os pobres, por mais volumoso que seja este trabalho. É preciso chegar a trabalhar com os pobres, por mais lento que seja este trabalho. Não há chance para uma evolução transformadora, sem que o pobre, como hoje se diz, seja o sujeito da sua história. No nosso trabalho no nordeste brasileiro fizemos muitas experiências dolorosas como também felizes. Aprendemos que não se deve simplesmente implantar projetos. Tentamos sempre perguntar primeiro pelas causas e razões das condições ou práticas existentes, da resistência a propostas aparentemente vantajosas, da lentidão dos resultados que aponta para fatores muito mais complexos do que percebemos à primeira vista. Não é possível chegar a essa sensibilidade no trabalho com os pobres sem beber constantemente na fonte do mistério de Nazaré e da eucaristia. Pode-se adquirir habilidade de análise e pesquisa. Mas o coração compadecido identifica-se com o irmão e sofre as suas dores, carrega consigo o carisma de Nazaré.

 

            É por isso que tenho uma profunda desconfiança das chamadas “parcerias” que governos e repartições oferecem a instituições de ação social da igreja. São recursos canalizados para estas entidades na sistemática burocrática de orçamentos, requerimentos, parcelamentos, decisões deliberativas e prestação de contas. Essa sistemática é necessária na administração pública, mas torna-se perigosa para apagar a chama da generosidade e gratuidade. A “Misereor” da Alemanha por exemplo trabalha com apenas 30 por cento dos seus recursos provenientes das doações dos católicos, o resto vem do Governo daquele país. Eu conheço casos de funcionários de entidades mantidas pela “Misereor” no Nordeste do Brasil que tiveram os seus salários atrasados por quatro meses por causa dessas verbas não liberadas. Sem o carisma de Nazaré a igreja vira uma ONG (NGO), mas não evangeliza.

 

            Não podemos deixar de voltar a nossa atenção a uma atitude evangelizadora de Irmão Carlos que é um carisma precioso adquirido num longo e doloroso processo. Irmão Carlos partiu para o Saara e os Tuaregs com uma enorme vontade de converter estes muçulmanos. Não teve êxito. Não converteu nem batizou ninguém. Antes de entregar-se ao sentimento de frustração ou mesmo de acusar os infiéis, ele questionou-se a si mesmo, desconfiando da sua pouca santidade. O seu fracasso apostólico, porém,  o levou a uma atitude missionária, que, mais uma vez, é fundamentada na sua convicção de que a longa vida oculta de Jesus em Nazaré é a atitude de Deus que se rebaixou para assumir tudo o que é humano. Vivendo este mistério de Nazaré dentro de si, chegou a descobrir e praticar a virtude mais sutil de quem quer evangelizar: o respeito para com os chamados infiéis ou, nas categorias eclesiais atuais: os afastados e não-praticantes..Considerava todos eles que queria converter “...pessoas inteligentes e que de maneira alguma dever-se-ia atentar contra a sua liberdade; para fazer um muçulmano mudar de religião seria necessário que um cristão lhe inspirasse mais confiança que seus pais, seus amigos, os representantes  da religião, tudo o que amou, respeitou e acreditou.” Irmão Carlos tornou-se, lentamente, mais realista e mais humilde, procurou não só constatar as razões da não-conversão. Entendeu que os  modelos culturais que sustentam as pessoas não se substitui senão por bondade, amor e prudência. A sua percepção da encarnação de Deus em Nazaré o levou a descobrir o caminho da evangelização: a inculturação. É urgente que nós, no nosso mundo secularizado, das igrejas esvaziadas e das migrações dos neo-pagãos descomprometidos descubramos essa indispensável condição para evangelizar. Podia até acontecer que substituímos estes termos de “secularização”,  “neo-pagãos”, “igrejas esvaziadas”.

 

            Pessoalmente vejo neste carisma do Irmão Carlos um estímulo para o meu esforço pastoral, no meu lugar duma quase-paróquia nos confins do sertão nordestino. As pessoas não atendem às propostas duma vida paroquial que nunca tiveram, nem conheceram o seu sentido. Se não tiveram oportunidade para criar as tradições que nós do centro praticamos há gerações, como vão, de repente, mudar comportamentos só porque um sacerdote chegou a conviver com eles, que nem pergunta pelas tradições que também este povo tem. São, por assim dizer, os meus “Tuaregs” que devo conhecer, atrair, compreender na sua cultura e respeitar nas suas capacidades.

 

             As intuições e carismas de Irmão Carlos assimilados na minha realidade, talvez podem, mesmo tarde, fazer de mim um companheiro dele, que tanto desejava ter, que com ele “vai ao fim do mundo para difundir o Santo Evangelho”.

 

 

Obs.: Os textos entre aspas são palavras do Irmão Carlos encontradas nos documentos biográficos dele. Como aqui não se trata de um trabalho científico, dispensamos das indicações bibliográficos detalhadas.

 

 

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VIVER O CARISMA DE CARLOS DE FOUCAULD HOJE

Edson Damian

 

O Ir Carlos é uma pessoa fascinante, pois estamos diante de "um místico em estado puro" (Louis Massignon), de um apaixonado de Jesus "que fez da religião um amor" (Abbé Huvelin). "É uma luz que a Providência nos dá para iluminar o nosso tempo" (Ives Congar). É um caminho indiscutível do Espírito e da presença de Deus para homens e mulheres de hoje.

 

O Cardeal José Saraiva Martins, uma semana após a beatificação, publicou no Osservatore Romano, um longo artigo com o título: "O Beato Carlos de Foucuald, Profeta da Fraternidade Universal". Conclui assim: "Ao sondar as raízes mais profundas da vida interior de Carlos de Foucauld, percebe-se que, provavelmente, poucas espiritualidades, como a sua, são adequadas ao mundo atual. A sua é uma espiritualidade que nos leva à essência do cristianismo, e ajuda a descobrir a pobreza evangélica, não no seu vago sentimentalismo, mas na sua força radical, revelando às pessoas tão fascinadas pelo consumismo o verdadeiro sentido de Deus. O Ir Carlos pode guiar-nos a comportar-nos hoje como verdadeiros irmãos de todos os homens, sem distinção, não por um simples humanitarismo, mas graças à comunhão de amor com o Coração Cristo ".

 

Ao longo de toda a sua vida, o Ir Carlos teve pouca influência - se deixarmos de lado a exploração do Marrocos. Apesar dos seus esforços não conseguiu discípulos nem chegou a ver aceitas nem reconhecidos as suas propostas. "Foi um monge sem mosteiro, um mestre sem discípulos, um penitente que manteve em sua solidão a esperança de um tempo que não ia ver” (René Bazin). Não foi "um homem para o seu tempo". Mas, passados alguns anos após seu martírio, começa uma irradiação que não cessa de crescer, e hoje se pode afirmar que é "um homem para o nosso tempo".

 

Apareceram múltiplas associações, em estrutura religiosa ou secular, religiosas/as, de presbíteros e leigos/as que se encantam pelo Ir Carlos e desejam viver e seguir seu espírito: Irmãozinhos e Irmãzinhas de Jesus, do Evangelho, do Sagrado Coração, da Encarnação, de Nazaré, Fraternidades Carlos de Foucauld, Jesus Cáritas... Estão presentes nos bairros, cidades portuárias, arrabaldes das megalópoles. Vivem em pequenas casas abertas nas quais se adora o Santíssimo e o próximo, seja quem for, é sempre acolhido. Este silêncio e hospitalidade não fazem barulho, por isso não são noticiados e poucos sabem que existem. Quantos souberam, em Nazaré, que Deus morava na casa ao lado?

 

 Que fez de extraordinário o Ir Carlos para exercer tanta influência e, finalmente, na sede do apóstolo Pedro em Roma, no dia 13 de novembro de 2005, ser reconhecido como expoente autêntico da fé em Cristo, modelo possível de vida cristã e testemunha qualificada de uma fraternidade universal que entrelaça todos os homens numa família?

 

Fato semelhante ao do Apóstolo Paulo, modelo de todos os convertidos, também para o Ir Carlos a conversão, a fé e a descoberta da sua missão futura aconteceram no mesmo instante. "No mesmo momento em que acreditei que Deus existia, compreendi que não podia fazer outra coisa senão viver para ele: minha vocação religiosa data a mesma hora que a minha fé".

 

Descobrir a forma e as exigências concretas desta vocação exigiu longos anos e o levou por longas caminhadas e meandros dolorosos. Em 1890 ingressa na Trapa de Nossa Senhora das Neves na França, transferindo-se logo ao priorado que esta abadia tem em Akbés (Síria, 1890-1896). Ali nasce o desejo profundo de reviver o Evangelho em sua gestação silenciosa: "a vida de Nazaré". Geralmente custamos a perceber que os evangelhos referem-se quase exclusivamente  ao que Jesus disse, fez, sofreu e experimentou durante os três últimos anos da sua vida. Mas, o que aconteceu antes? Se ele é o Filho de Deus encarnado, como fui sua existência de 30 anos de trabalho em Nazaré, a sua participação em nosso destino, sua oração, sua relação com as pessoas, seu próprio mistério interior? Que consequências este mistério traz para nossa vida?

 

Buscar a raiz para estar enraizados e não desarraigados, voltar de novo aos inícios para ter princípios e fundamentos, é uma necessidade originária do homem. No cristianismo isto nos remete à Nazaré e à Belém para ver surgir Jesus, surgir com ele e aprender com ele a colocar os fundamentos da fé no Pai, a personalíssima relação com ele, a missão da Igreja no mundo. Em Nazaré e Belém foi morar S. Jerônimo e foram os primeiros lugares que visitou Pablo VI quando saiu dos muros do Vaticano. Lá estão a raiz e a seiva da revelação divina, da experiência cristã e a fraternidade universal que brota delas.

 O Ir Carlos une esta descoberta da graça com a sua primeira paixão:  a África, o Islão, o deserto, uma presença itinerante, colaboradora e fraternal com as populações saarianas do Marrocos e da Argélia. Como presbítero diocesano, eremita, missionário itinerante, instala-se primeiro em Béni-Abbé, em seguida no Hoggar e finalmente com os tuareg em Tamanrasset. Que tenta fazer lá, sozinho? Ser como Jesus em Nazaré, sem pretender outra coisa se não conviver, oferecer hospitalidade, prestar um louvor incessante a Deus e intercessão contínua em favor dos homens. Três são os centros da sua vida: 1. Viver o Evangelho, para o que Jesus viva em nós. "É necessário empapar-nos de espírito Jesus, meditando sem cessar as suas palavras e os seus exemplos. Que sejam para nós como a gota que cai e recai sobre uma pedra sempre o mesmo lugar". "Toda nossa existência, todo nosso ser, deve gritar o Evangelho sobre os telhados. Toda nossa vida deve respirar Jesus, todos nossos atos devem gritar que lhe pertencemos, devem apresentar a vida evangélica". 2. Amar a Eucaristia para que Jesus esteja nós, como está no Pai. A Eucaristia é um oceano de amor onde ele se perde inteiramente e para sempre. “Ele viveu uma fé eucarística plena, despojada e transbordante”( Mons Lorenzo Chiarinelli, bispo de Viterbo). Assumir a pobreza como forma suprema atenção, solidariedade e amor ao próximo. Ao redor destes três eixos (Evangelho, Eucaristia, Pobreza) giram as atitudes fundamentais que movimentarão todo o seu ser e agir: fraternidade, proximidade, solidariedade. Seu eremitério sempre aberto  todos: "dar da hospitalidade a todo que chega, bom ou mau, amigo ou inimigo, muçulmano ou cristão". Assim se torna irmão universal, para além de raças, culturas, religiões. "Quero habituar a todos estes habitantes, cristãos, muçulmanos, judeus e idólatras, a olhar-me como seu irmão, o irmão universal". 

 

Oração silenciosa e louvor a Deus integrados à convivência e promoção dos tuareg, cuja língua e cultura conhece perfeitamente. Recolhe sete mil versos da sua poesia, anotados em cadernos ao longo dos anos passados no deserto. Reescreve poemas e provérbios e traduz ao francês. Elabora em quatro volumes "um Dicionário francês-tuareg e tuareg-francês, além de uma gramática. No dia 28 de novembro de 1896 escreve nas suas notas: "fim das poesias tuaregs" Três dias depois, 01 de dezembro do 1916, era assassinado em seu eremitério de Tamarasset. A guerra e a violência acabaram com aquele homem que tinha sido inteiramente dom e paz.

 

Ficaria silenciada para sempre esta voz e sufocado este fogo? O seu legado foi recebido e conservado por quatro grandes nomes: Louis Massignon, grande conhecedor do mundo árabe e místico; René Bazin, da academia francesa, que com sua biografia de 1921 aproximou sua figura de herói e místico às novas gerações; Père J.M. Peyriguère que revive com iniciativas pessoais o espírito do Ir Carlos; René Voillaume, orientador das "Fraternidades” que surgem a partir de 1933, ao mesmo tempo em que estende a todos os cristãos a vocação de Nazaré com a sua obra clássica: "Fermento na Massa" (1950) e por meio do Padre Ives Congar influencia de maneira decisiva o Concílio Vaticano II tornando presente e programático o desafio: "a Igreja e a pobreza no mundo".

 

A vida espiritual do Ir Carlos, sua leitura da Bíblia e sua proposta evangélica são-nos acessíveis através os seus múltiplos pequenos escritos, cuja edição completa em francês compreende 17 volumes. A sua oração: "Pai, a vós me abandono" já é um texto clássico, recitado e memorizado por milhões de cristãos.

 

Olhando a situação do nosso mundo e da nossa Igreja, encontramos na vida e na espiritualidade do Ir Carlos uma luz preciosa e fecunda que nos ajuda a iluminar e conduzir em situações complexas que devemos hoje enfrentar.

 

Hoje fala-se muito do "retorno ao sagrado", de uma “nova era" para a humanidade, do reflorescer da religiosidade dos nossos povos. O Ir Carlos, que passou por um longo período de indiferença e ausência de Deus, e por uma admiração, quase fascinação pela mística muçulmana, finalmente encontrou-se com Deus no segredo do confessionário, sem barulho, num murmúrio, um reconhecimento explícito  de viver somente para este Deus ainda por ser descoberto. Por ele foi seduzido para sempre. Antes da sua conversão, Carlos pressentiu que Deus não se prova, mas se encontra: e para encontrá-lo é necessário procurá-lo, ter fome dele, necessitar dele, como um pobre. Pode-se quase dizer que Carlos rezou antes de crer. Passava longas horas repetindo uma estranha oração: "Deus, se existes faz com que te conheça”. O Deus que ele encontra vai tomar uma face humana em Jesus de Nazaré, cujo país visita, lá na Galilea." É a descoberta de um Deus pobre, despojado, humilde, neste lugar impossível de lhe arrebatar: o último. O Deus das alturas é necessário procurá-lo no mais baixo. O Ir Carlos recuperou para todos o figura fraterna e terna Jesus na Palestina, acolhendo em seu coração, por qualquer caminho, os trabalhadores e os sábios, os judeus e os estrangeiros, os doentes, as mulheres e as crianças, que ele tornou compreensível e acessível para todos.

 

O nosso mundo secularizado, crendo-se livre de todas as utopias, procura desesperadamente saciar sua sede de paz, de felicidade, de bem-estar, e cria ídolos - o dinheiro, o poder, o prazer - que respondam às suas aspirações.  Convém não esquecer que o Ir Carlos era um intelectual que utilizava a experiência especialmente geográfica e lingüística com enorme amplitude e acuidade, tanto antes como após a sua conversão. Embora nos seus escritos espirituais não apareça explicitamente esta dimensão, não esqueçamos que a instrução e a cultura constituem para ele uma plataforma para a evangelização dos tuaregs. Não há nele cisão entre o cientista e o crente, mas a integração das duas dimensões através de um longo caminho espiritual, no qual os dons explicitamente místicos, não terão lugar ou pelo menos não brilharão como independentes de uma vida obscura e abjecta. Neste sentido, a sua vida pode também ser um exemplo para os homens de hoje. É possível manter uma atenção mundano-científico-cultural no interior da experiência de uma fé viva. Este aspecto da vida do Ir Carlos poderia ajudar muito os cientistas de hoje!

 

O nosso mundo quase aterrorizado vê reaparecer nacionalismos, fundamentalismos e intolerâncias que destroem a unidade humana e semeiam violência e morte onde chegam. Este realidade necessita de pessoas que, como o Ir Carlos, falem de "Fraternidade Universal", recusem utilizar e mesmo crer em outra força, além da força do amor, da solidariedade, da amizade, do respeito, como única fonte de convivência e chave de toda relação humana. Ensina-nos que junto a um apostolado necessário em que o apóstolo deve revestir-se do meio que deve evangelizar, quase desposá-lo, existe outro apostolado que pede uma simplificação de todo o ser, um abandono do previamente adquirido, de nosso eu social, uma pobreza um pouco vertiginosa, que torna totalmente ágil para sair ao encontro de cada um dos nossos irmãos sem que nenhuma "bagagem" inata ou adquirida impeça de correr para ele: todo de todos, derrubando todas as fronteiras. Vivendo no meio de uma população que não compartilha sua fé, o Ir Carlos gostaria de comunicar-lhes a sua. Ele que estava abrasado pelo fogo do Evangelho vai viver calado, neste respeito infinito pelo outro e descobrir que é chamado a gritar o Evangelho com a vida. Esta é, indubitavelmente, a herança mais bela que nos deixou. Por sua vez, dá-se por satisfeito em poder falar ao Bem Amado na Eucaristia celebrada e contemplada através do Evangelho meditado continuamente.

 

Nosso mundo, construído para alguns e muito frequentemente sobre a exploração e a destruição de milhares de pessoas, acaba deixando marginalizados milhares de seres humanos que já não contam, nem mesmo como ameaça, aos quais se recusa até mesmo o direito de existir. O Ir Carlos vem recordar-nos com toda a força da sua vida, as palavras Jesus, julgamento para todos: "Não há palavra do Evangelho que me tenha causado impressão mais profunda e transformado tanto a minha vida como esta:Tudo o que fizerdes um destes pequeninos é a mim que o fazeis" (Mt 25,40). Se pensamos que estas palavras são da Verdade incriada, da mesma boca que disse: "Este é o meu Corpo, este é o meu Sangue"... Como não nos esforçar para ir procurar e amar Jesus nestes pequenos, pecadores, os mais pobres". Que extraordinária síntese cristológica e eucarística! “Os pobres e os pequenos são os preferidos de Deus e os destinatários da evangelização de Jesus. Também São Paulo nos escreve que nas Comunidades primitivas havia poucos ricos, poucos sábios, poucos poderosos e poucos nobres. O Vaticano II redescobriu outra vez e reafirmou este aspecto. Após o Concilio falou-se muito da opção preferencial pelos pobres. A teologia da libertação inspirou-se nesta mensagem. A grande maioria da humanidade vive atualmente abaixo do limiar da pobreza. Espero que a beatificação de Carlos de Foucauld retome a urgência de enfrentar o desafio da pobreza tanto material quanto espiritual e nos mostre a resposta evangélica, vivida por ele de maneira exemplar, que o mundo atual deve dar”. (Cardeal Walter Kasper, presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, in “Revista 30 Dias”, janeiro - fevereiro de 2005)."

 

Para o Ir Carlos a opção pelos pobres é também compromisso vital com a justiça. Denuncia com vigor profético as injustiças do colonialismo: "Ai de vocês hipócritas, que escrevem nos selos:" liberdade, igualdade, fraternidade, direitos do homem e, em seguida marcam a ferro o escravo; que condenam às galeras quem falsifica talões de banco e permitem roubar as crianças dos seus pais e vendê-las publicamente; que punem o roubo de um frango e permitem o roubo de um ser humano. É necessário agir para que não se perca nenhum daqueles que Deus nos confiou". Num outro texto mais conhecido: "É preciso amar a justiça e odiar a iniqüidade. Quando o governo comete uma injustiça grave contra quem estamos encarregados (sou o único padre num raio de 300 Km), é necessário denunciar, pois representamos a justiça e a verdade, e não temos direito de ser "sentinelas adormecidas", "cães mudos" (Is 55,19), "pastores indiferentes" (Ez 34).

 

A nossa Igreja, que passado o fervor de Concilio Vaticano II, não consegue reencontrar de novo o caminho de uma unidade respeitosa e acolhedora de posições diferentes, precisa voltar a Jesus como sua fonte, e apresentar sua pessoa como critério para discernir e avaliar qualquer proposta e posicionamento. O Ir Carlos brilha como uma testemunha na sua quase obsessão pela unidade entre todos os seres humanos e na sua insistência continua em mostrar o amor feito entrega e serviço como a única força capaz de transformar o mundo e de fazer com que a comunidade dos seguidores Jesus seja um sinal no meio dele. "Não estou aqui para converter imediatamente os tuaregs, mas para tentar compreendê-los... Estou convencido de que Deus em sua bondade acolherá no céu os que foram bons e dignos, sem necessidade de ser católico romano ou evangélico. Os tuaregs são muçulmanos. Sou persuadido de que Deus nos receberá a todos se o merecermos".

 

Jon Sobrinho, teólogo jesuíta salvadorenho verbaliza as nossas esperanças diante do futuro da Igreja da América Latina e da V CELAM: "Oxalá em Aparecida levantemos vôo, sem censura e com magnanimidade, sem ressentimentos e com esperança; porém, é importante retomar o rumo e orientar-nos a um "novo Medellín". Em Aparecida deverá nascer muito de "novo", mas também muito de Medellín. Não esqueçamos nunca a opção pelos pobres, as comunidades eclesiais de base, a teologia da libertação que é a teologia dos pobres. Nossa Igreja, mais que nunca tem necessidade de presbíteros e religiosos/as que assumem a causa dos indígenas, dos afro-descendentes, dos camponeses, dos excluídos das cidades; tem necessidade de leigos/as que trabalham pelos direitos humanos; tem necessidade de camponeses que estudem a Bíblia e avancem na teologia; precisamos das romarias populares e da memória dos mártires; inúmeras vidas escondidas e magníficas; bispos dedicados ao seu povo e que se mantenham "em rebelde fidelidade. E uma longa ladainha de boas coisas que realizam os pobres e aqueles que com eles se solidarizam". Realizar-se-á assim a profecia de Mons Oscar Romero, o nosso bispo mártir: “A nossa Igreja jamais deixará sozinho o povo que sofre".

 

 Aos presbíteros, principalmente os diocesanos, a Fraternidade Sacerdotal oferece um caminho simples, com um mínimo de estruturas (Diretório 59s), mas que se revela muito eficaz para a vida e o ministério presbiteral: espiritualidade centrada na Eucaristia celebrada e adorada, as reuniões periódicas - a graça do encontro, o dia de deserto, a revisão de vida, o mês de Nazaré, a experiência da amizade - "somos tão poucos, precisamos nos amar muito". Não esqueçamos que o Ir Carlos, como ninguém, viveu o  ministério presbiteral como serviço aos últimos, para levar “o banquete aos mais afastados”, no espírito de nosso Mestre e .Senhor que lavou os pés dos discípulos. Lembremo-nos sempre de que ministério significa “minus-stare”, isto é, estar abaixo de todos, no ultimo lugar, para servir a todos como Jesus.

 

O Ir Carlos também foi precursor da "caridade pastoral", a expressão feliz do Vaticano II para caracterizar a vida e o ministério presbiteral. Consiste em ser sacremento, ícone, transparência de Jesus profeta, sacerdote e pastor no meio do povo de Deus. Assim elimina-se a tentação de julgar-se importante, converter-se casta social, clericalismo, pois sua função é precisamente indicar e desaparecer, indica pela sua vida e cede passagem à presença viva de Jesus,  o Bom Pastor Ressuscitado. Uma expressão preciosa do Ir Carlos expressa esta verdade: "O padre é uma custódia. Sua função é mostrar Jesus. Ele deve desaparecer para revelar Jesus. Devo esforçar-me para deixar uma boa recordação na alma de todos os que me vêm. Tornar-me tudo para todos: rir com os riem, chorar com os que choram, para conduzi-los todos a Jesus. Colocar-me com condescendência ao alcance de todos, para atraí-los a Jesus". Quando o Ir Carlos foi assassinado aconteceu algo inexplicável: a custódia com o Santíssimo foi encontrada ao lado do seu corpo. O Bem Amado Irmão e Senhor, que ele buscou a vida inteira, colocou-se ao lado do seu discípulo ferido de morte.

 

A sedução de Deus no Ir Carlos adquiriu a forma de uma ferida de amor que se excedeu em generosidade através de uma longa viagem interior e exterior que o levou à entrega de tudo, até de si mesmo. "Precisamos mudar muito para permanecermos os mesmos" (Dom Helder Câmara). Que imenso deserto é o coração humano! A última mensagem escrita pelo Ir Carlos no dia 01 de dezembro de 1916 é uma convocação ao amor convencido de que o Bem Amado Irmão e Senhor Jesus é o amor, o amante, o amado. "Nosso aniquilamento é o meio mais poderoso que temos para unir-nos Jesus e faz bem às almas. É o que São João da Cruz repete quase em cada linha. Quando  podemos sofrer amar podemos muito, podemos mais de o que imaginamos neste mundo; sentimos que sofremos, mas nem sempre sentimos que amamos. Mas, sabemos que queremos amar, e o desejo de amar já é amar. percebemos que não amamos bastante, e é verdade, nunca se amará suficientemente! Mas o Bom Deus que sabe de que barro nos amassou, e que nos ama mais do que uma mãe pode amar a seu filho, disse-nos, Ele que não mente, que não rejeitará quem recorre a ele". Segundo Galilea disse-nos durante um retiro: Em nosso coração existe mais amor do que somos capazes de manifestar. Mesmo assim, as pessoas nos cercam precisam saber e perceber que nós as amamos.

 

O Ir Carlos de Foucauld nos deixa uma herança que é necessário fazer frutificar, desafios que é preciso assumir. Deixa-nos uma obra inacabada. Vamos fechá-la num museu religioso ou arregaçar as mangas para seguir no sulco que traçou? Grandes desafios evangélicos continuam abertos diante de nós.

Desafio da mansidão e da não-violência evangélica num mundo cada vez mais injusto e mais violento.

 

Desafio de reafirmar centralidade de amor fraterno que deve ser vivido numa Igreja samaritana, acolhedora, missionária, pobre, profética, pascal.

 

Desafio de uma fraternidade vivida em escala planetária, acima de qualquer manifestação de ódio étnico e de vingança, acima de qualquer sentimento de superioridade nacional ou cultural. Fraternidade universal indispensável para que "outro mundo seja possível".

 

Desafio de evangelizar sem impor, sem julgar, sem condenar, ser testemunho de Jesus respeitando e valorizando outras experiências religiosas.

 

Desafio de assumir e manter em toda a Igreja a opção pelos pobres e estabelecer alianças com os homens e mulheres de boa vontade que lutam pela justiça e pelos direitos humanos.

 

Desafio de “gritar o evangelho com a vida”, como forma mais comprometida e inculturada de evangelizar. Os homens e mulheres de hoje precisam mais de testemunhas do que de mestres e somente aceitam os mestres quando testemunham. Mais uma vez as palavras inesquecíveis do Ir Carlos: “Meu apostolado deve ser o apostolado da bondade. Vendo-me devem poder dizer: visto que este homem é tão bom, sua religião deve ser boa. Se me pergunta porque sou terno e bom, devo dizer: porque sou servidor de Alguém muito melhor do que eu. Oh! se soubessem como é bom meu Mestre Jesus”.

 

Queiramos ou não a beatificação do Ir Carlos, estamos presos na armadilha da sua mensagem e da sua obra inacabada. Não se trata de colocar o nosso beato nos altares, de carregar a sua medalha no peito, de venerar as suas relíquias, mas de colocar-nos em sua escola, ou seja, a escola Jesus, o seu e nosso Bem Amado e Senhor Jesus. “Voltemos ao evangelho. Se não vivemos o evangelho, Jesus não vive em nós”. Se queremos andar nas pegadas do Ir Carlos, não há outro caminho que não passe por Jesus de Nazaré, Aquele que escolheu o último lugar. "Meu Deus, não sei se é possível para alguém, ver-te pobre e continuar rico como antes. Quanto a mim, não posso conceber o amor sem a necessidade imperiosa de identificação, de semelhança e sobretudo de partilha, de todos os sofrimentos, de todas as dificuldades, de todas as durezas da vida”...Não convém que o servidor seja maior que o Mestre. Por fim, uma recomendação muito oportuna do próprio Ir Carlos, que o Osservatore Romano publicou ao lado da sua foto no dia da beatificação: “Não devemos fixar o olhar nos santos, mas naquele que faz os santos. Admiramos os santos para seguir Jesus.

 

Os irmãos das Filipinas, em seu relato à nossa Assembléia, fizeram-me recordar uma recomendação que nos fez Dom Luciano Mendes de Almeida (duas vezes secretário e presidente da CNBB, falecido no dia 28 de agosto de 2006). Cito o que nos disse em memória e gratidão a ele: “Sei que vocês da Fraternidade têm o carisma da discreção. Mesmo assim, peço-lhes eu sejam menos discretos, pois muitos presbíteros precisam da Fraternidade e nela ingressariam se a conhecessem, pois têm sede de espiritualidade. O êxito da evangelização depende, em grande parte da espiritualidade e da mística de quem evangeliza”. Haverá espiritualidade mais radical e mais comprometida com Jesus, com o Evangelho e com os pobres que a espiritualidade do Ir Carlos de Jesus?

 

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Pbro Edson Damian

Missionário na Igreja de Roraima

 

 

DESERTO – LUGAR DO ENCONTRO COM DEUS

Edson Damian

 

O primeiro impacto de Deus como Absoluto o Irmão Carlos vivenciou em sua viagem de reconhecimento ao Marrocos: na descoberta da “grandeza austera do deserto” e na simplicidade religiosa dos muçulmanos. Escreve à Marie de Bondy:

“O que há de maravilhoso por aqui é o pôr-do-sol, o entardecer e a noite. Vendo esses belos crepúsculos, relembro o quanto eles lhe agradam, pois evocam a bonança que virá após a tormenta do nosso tempo. Os fins de tarde são tranqüilos, as noites tão serenas, este céu imenso e estes vastos horizontes parcialmente iluminados pelos astros são tão tranqüilos e, silenciosamente, de uma maneira tão penetrante cantam o Eterno, o Infinito, o Além, que seríamos capazes de passar noites inteiras nesta contemplação; no entanto, abrevio estas contemplações e, depois de alguns instantes, dirijo-me para o sacrário, pois há muito mais do que tudo isso no humilde sacrário. Tudo é nada comparado ao Bem-Amado”.

O deserto deixou no Irmão Carlos uma marca definitiva. Será como uma espécie de selo de família, de todos os ramos da família espiritual que tenham sua origem no carisma foucauldiano. Partindo de uma vasta tradição dos padres do deserto, escreve: “É necessário passar pelo deserto e nele permanecer para receber a graça de Deus: é no deserto que nos esvaziamos e nos desprendemos de tudo o que não seja Deus, onde esvaziamos completamente a casinha de nossa alma para deixar o espaço todo somente para Deus. Os hebreus passaram pelo deserto, Moisés viveu nele antes de receber a missão, Paulo, ao sair de Damasco, passou três anos na Arábia, São Jerônimo e São João Crisóstomo também se prepararam no deserto. É indispensável. É um tempo de graça. É um período pelo qual tem de passar necessariamente toda alma que queira dar fruto. É necessário este silêncio, este recolhimento, este esquecimento de tudo o que foi criado para que Deus estabeleça na alma o seu Reino e forme na alma o espírito interior, a vida íntima com Deus, a conversação da alma com Deus na fé, na esperança, na caridade... É na solidão, vivendo somente com Deus, no recolhimento profundo da alma que esquece o que existe para viver só em comunhão com Deus, onde Deus se entrega totalmente a quem se abandona totalmente a Ele”.

Desde Abraão, nosso pai na fé, que no deserto é enviado por Deus a uma terra estranha para consolidar sua vocação; passando por todos os profetas, desde Moisés e Elias até João Batista, todos eles purificados por Deus no deserto e consumidos aí por seu amor em vista da missão; até o próprio Jesus, conduzido pelo Espírito ao deserto da tentação e periodicamente indo a lugares ermos para orar – a espiritualidade bíblica é incompreensível sem a dimensão do deserto.

O Absoluto de Deus, descoberto e vivido num primeiro tempo, mediante o deserto e o Islã, produziu no Irmão Carlos uma experiência muito intensa de dependência como criatura, antes de chegar à consciência de filiação. A experiência do deserto rompeu o ceticismo-agnosticismo científico de Carlos de Foucuald; no entanto teve um longo caminho a percorrer para descobrir, através do caminho místico da vida cristã, sua condição de filho de Deus e irmão amado de Jesus.

A relação do Irmão Carlos com o Pai está expressa na “Oração do Abandono”, considerada a maior característica de sua espiritualidade.

 

Deserto, em primeiro lugar é experiência do Absoluto de Deus e do relativo de tudo o mais, incluídas aí as pessoas e nós mesmos. No deserto estamos sós diante de Deus, e esta presença deveria bastar para plenificar e dar sentido à nossa vida. No deserto, o amar e buscar a Deus com todo o coração, com toda a mente e com todas as forças, é a única alternativa possível e assim  experimentamos a verdade fundamental da mística cristã: Deus nos amou primeiro e vem ao nosso encontro. “Agora sou eu mesmo que vou seduzi-la, vou leva-la ao deserto e conquistar seu coração” (Os 2,16). Vamos ao deserto sem enfeites e sem máscaras, no silêncio e na pobreza do ser, para escutar Deus falar ao coração, para deixar Deus ser Deus.

“O silêncio é a medida do amor. Só quem ama sabe cur­tir o silêncio a dois. É ruidoso o mundo em que vive­mos. Há dema­siadas máquinas de fa­zer barulho: telefone, fax, rádio, TV, veículos, campainhas. Nosso cé­rebro habitua-se tanto à sonoridade excessiva que custamos a desli­gá-lo. Uns preferem re­médios que façam dormir. Outros, a bebida. Assusta-nos a hipó­tese de manter a casa em silêncio. Decretar o jejum de ruídos; desli­gar rádio, TV e telefone. Isso pode levar ao pâni­co. A “louca da casa”, a imaginação, entra em rebuliço, su­pondo que há uma notícia importan­te a ser ouvida ou um telefonema de­ urgência a ser recebido. Ou experimenta-se o medo de si mesmo. Sentir-se ameaçado por si mesmo é uma forma de loucura freqüente em quem, súbito, vê-se privado de sons exteriores. Como alguém preso no elevador. Não é a claustrofobia que amedronta. É o peso de suportar-se a si mesmo, entregue aos próprios ruídos interiores. É terrível o espectro de uma par­cela dessa geração que se nutre de ruídos desconexos. Comunica-se por um código ilógico; balbucia le­tras musicais sem sentido; entope de sons os ouvidos, na ânsia de preencher o vazio do coração. São seres transcendentes, porém cegos. Trafegam por veredas perdidas, sem consciência de que procuram fora o que só pode ser encontrado dentro” (Frei Betto).

Os monges, os contemplativos inseridos no mundo como fermento na massa, nutrem-se de silên­cio. No deserto aprendemos a gostar da solidão, ouvir a voz interior, estar só para sentir-nos intimamente acompa­nhados, tapar os ouvidos para es­cutar e auscultar Aquele que faz em nós Sua morada. Enfim, fechar os olhos para ver melhor.

Espiritualidade é deixar-nos encontrar, amar e conduzir por Deus. Assim o deserto salienta a dimensão da espera, da expectativa da visita de Deus que vem ao encontro de nossa impotência e aridez e se revela sempre maior que o nosso coração. Como nos testemunha o Irmão Carlos: “Assim que eu acreditei que havia um Deus, compreendi que só podia viver unicamente para ele: minha vocação religiosa data da mesma hora que minha fé. Deus é tão grande! Há uma diferença tão grande entre Deus e tudo que não é ele!” Deus está sempre além das fórmulas teológicas, de qualquer utopia histórica e social, de qualquer acontecimento libertador ou de toda a beleza e bondade que vemos nas pessoas ou na natureza. No Evangelho, Jesus recomenda não multiplicarmos as palavras na oração. O Pai sabe de que necessita­mos. Todavia, somos desatentos ao conselho. No Ocidente, falamos de Deus, a Deus, sobre Deus. Quase nunca deixamos Deus falar em nós. Agimos como aquela tia que liga pa­ra minha mãe: fala tanto, que nem se dá conta de que mamãe larga o fone, vai à cozinha mexer a panela e retorna. Quem muito se explica, muito se complica, pois teme a própria sin­gularidade.

“O silêncio ajuda-nos a descer em nós mesmos para ir ao encontro de Deus e ao nosso encontro também, pois revela ao homem o seu próprio mistério, o cerne do seu ser como pessoa livre, indefinível e inacessível a qualquer ciência humana. Há uma qualidade de silêncio que nos põe em estado de escuta total. É um silêncio que nos leva ao fundo de nós mesmos, em comunhão com o Ser Absoluto que nos deu a existência. Tal silêncio é sagrado e precisa ser absoluto. É tudo ou nada. É descer no mistério do“eu” que nos conduz à fronteira do Mistério de Deus e constitui uma última preparação para a escuta da Palavra incriada que nos deu a vida ao pronunciar o nosso nome” (René Voillaume).

Em segundo lugar, o deserto é o lugar da autenticidade e da verdade sobre nós mesmos, sobre o que habitualmente nos rodeia, sobre nossos trabalhos, sobre sociedade. A sós diante de Deus, no despojamento do deserto, não podemos mais nos enganar, nem continuar nos iludindo e mascarando nossa vida. Prestígio, realizações, relações pessoais, sempre mescladas de ilusões e inautenticidade, já não acobertam nossas pretensões e mentiras nem nos desviam da verdade sobre nós mesmos e a realidade que nos cerca. A ambigüidade de nossas motivações e de nossas “generosidades” vem à tona e nos vemos tal qual somos, ou melhor tal qual Deus nos vê. Por isso o deserto é o lugar da conversão e de purificação do coração porque somos ambíguos na posse dos bens (pobreza), nas relações interpessoais (amor, afeto) e no uso do poder, no exercício da autoridade (obediência). O nosso amor, vivido na castidade do celibato, exige tempo de deserto para não se perder no caminho, não se tornar coração endurecido nem transviado (cf Sl 94). Na verdade, se buscamos Deus, a tomada de consciência das mentiras e cegueiras que nos envolvem leva-nos a optar pela luz que nasce do deserto e a despegar-nos das trevas das nossas motivações, trabalhos e relações com os outros; leva-nos a silenciar as vozes enganadoras dos ídolos, das ideologias, das riquezas, do prestígio e do poder, das paixões desordenadas, das compensações sutis do prazer. O deserto é o caminho da libertação interior, onde “Deus fala ao coração” e onde o espírito do mundo, que nos fascina, pode emudecer.

Em terceiro lugar, o deserto nos abre à verdadeira solidariedade e misericórdia para com os irmãos e nos ajuda a amar verdadeiramente. A aprendizagem do amor fraterno requer a atitude de deserto; a fraternidade e o serviço da comunidade exigem que em nosso espírito haja espaço para a solidão e silêncio.Os Santos Padres nos ensinam que, paradoxalmente, a solidão dá lugar à misericórdia “porque nos faz morrer para o próximo”, isto é, nos impede de julgá-lo, criticá-lo, avaliá-lo, morrer a toda espécie de preconceitos, antipatias, rancores, ressentimentos e hostilidades. Isto se torna possível porque o deserto nos dá um agudo sentir de nossos próprios defeitos e misérias, nos faz “ver a trave em nosso olho” e nos brandos e misericordiosos quando se faz necessário ajudar a “tirar o cisco no olho do nosso irmão.“O silêncio nos predispõe à compreensão dos outros, pois o hábito do silêncio nos ajuda a ouvi-los atentamente e colocar-nos em seu lugar, em vez de nos impormos por atitudes ou palavras muitas vezes indiscretas e ofensivas. Esse silêncio faz-nos fugir da tagarelice inútil, permitindo-nos ultrapassar certa superficialidade das relações humanas nas quais tão facilmente nos refugiamos”(René Voillaume).

Durante o deserto vêm à tona nossas fraquezas, incoerências, ambigüidades, infidelidades e torna-se impossível escamoteá-las ou justificá-las. Os gaúchos costumam usar uma mala de garupa que colocam nos ombros para carregar coisas na frente e atrás. Há um provérbio que aconselha a virar de lado a mala, porque costumamos colocar os defeitos dos outros na frente e os nossos atrás. A solidão do deserto possibilita-nos encarar nossos defeitos e buscar os meios para superá-los. E como certos vícios e defeitos têm raízes profundas e somos impotentes para arrancá-los, precisamos da misericórdia e do perdão do Senhor. Por isso, o deserto constitui lugar privilegiado para preparar a revisão de vida e o sacramento da reconciliação.

Em quarto lugar, o deserto é o lugar das tentações, da crise e também da superação das mesmas. É o lugar de nosso fortalecimento e amadurecimento, já que nosso espírito se torna forte mediante a coragem no enfrentamento da prova. Para os Santos Padres, o deserto é também o lugar do demônio e para lá se dirigiam para enfrentar e vencer as tentações, inspirados no testemunho de Jesus, quando esteve no deserto por quarenta dias. Como momento forte de espiritualidade, o deserto sempre gera crise. Nele encontramos Deus, mas também o demônio. Sem tentação correríamos o risco de apoderar-nos de Deus e torná-lo inofensivo e inóquo. Pela tentação experimentamos existencialmente nossa distância de Deus, percebemos a diferença entre o homem e Deus. Quando suplicamos; “Não nos deixeis cair em tentação” (Mt 6,13), não estamos pedindo para não sermos tentados, uma vez que isso seria até mesmo impossível, mas imploramos para não sermos devorados pela tentação ou fazermos algo que contrarie a vontade de Deus. Sem a tentação não sentiríamos o cuidado de Deus por nós, não adquiriríamos a confiança nele. Antes da tentação, poderíamos orar a Deus como a um ser longínquo, estranho. Após termos suportado a tentação por amor a Deus, Ele nos considera como alguém a quem fez um empréstimo e por isso tem o direito de receber juros, como um amigo que nos arrancou das mãos de um inimigo. Deus se torna mais próximo e familiar. Sem a tentação podemos nos tornar desleixados, descuidados de nós mesmos e passamos pura e simplesmente a vegetar. As tentações nos forçam a viver conscientemente, a exercitar a disciplina e a ascese, a permanecer sempre vigilantes e atentos. Porque nos torna mais humanos e humildes, a tentação torna-se caminho de crescimento e amadurecimento.

A miséria de que somos feitos emerge como verdade, como desânimo e até como desespero. Somos tentados a fugir do deserto porque é difícil agüentar o vazio, a solidão, as horas intermináveis, a aparente perda de tempo. Nossas agendas estão sempre abarrotadas de compromissos. Por formação e cultura capitalista, somos naturalmente voltados para a ação, para os resultados, para extroversão. O índex do totalitarismo do con­senso neoliberal decreta, hoje, o si­lêncio dos conceitos altruístas. Gri­ta-se competitividade, concorrência, “performance”, disputa, privatização... Cala-se solidariedade, coope­ração, doação, partilha, socializa­ção. Edifica-se a barbárie em nome de uma civilização prometéica, na qual muitos são os excluídos e poucos os escolhidos.

Temos medo do deserto porque o caminho mais difícil é aquele que nos leva para dentro de nós mesmos. Só quem conhece a beleza do silêncio, dentro e fora de si, é capaz de viajar por seu próprio mundo interior e encontrar o Senhor que habita no mais íntimo de nós. “Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Eis que estavas dentro e eu, fora. Aí te procurava e lançava-me nada belo ante a beleza que tu criaste. Estavas comigo e eu não contigo. Seguravam-me longe de ti as coisas que não existiriam, se não existissem em ti. Chamaste, clamaste e rompeste minha surdez! Brilhaste, resplandeceste e afugentaste minha cegueira. Exalaste perfume e respirei. Agora anelo por ti. Provei-te, e  tenho fome e sede. Tocaste-me e ardi por tua paz” (Santo Agostinho, Confissões).

Portanto, é importante ajudar-nos em nossas fraternidades a não fugir do deserto, a realizá-lo com certa regularidade e fidelidade. Porque, ou nos entregamos a Deus, ou nos fechamos em nós mesmos, fugindo de Deus: nisto consiste a tentação. Estas duas alternativas são radicais e incompatíveis e a gravidade da crise persiste até que morramos à nossa imagem e acolhamos a presença de Deus e nos deixemos moldar e conduzir pelo seu Espírito. A graça do deserto consiste em vencer a tentação sutil que o demônio nos apresenta como um bem aparente. Deserto é o lugar de conversão e espaço vocacional. Na volta do deserto estamos mais preparados para assumir a Fraternidade (espaço eclesial), para receber o sacramento do perdão e entregar a vida ao olhar dos irmãos (revisão de vida) para buscar novos caminhos de entrega e serviço ao Senhor e aos irmãos.

Nós vamos para o deserto:

-         com o Povo de Deus que “no deserto andava” em busca da Terra Prometida: somos descendentes e herdeiros de homens e mulheres do deserto.

-         com os Profetas para que o fogo da paixão por Deus nos queime por dentro, e com o coração abrasado nos deixemos seduzir.

-         com Maria que “guardava e meditava no seu coração" e na hora certa soube dizer: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se me mim segundo a tua palavra”

-         com Jesus, nosso “único modelo”: vida toda aberta ao Pai e aos irmãos. Ele espera nossa resposta como a de Pedro: “Senhor tu conheces tudo, tu sabes que eu te amo”. Por sua vez nos dirá: “Apascenta as minhas ovelhas...Quando eras moço...Segue-me” (aqui atrás de mim); “por causa de Jesus e do Evangelho”

-         com os “grandes orantes” da Igreja de ontem e de hoje

-         com o testemunho fascinante e o incentivo cativante de nosso querido Ir Carlos para aprender a articular com ele a “Oração do Abandono” como Jesus no deserto e na cruz para fazer a vontade do Pai e para que venha o seu Reino.

 

Pbro Edson Damian

Missionário na Igreja de Roraima - Amazônia

 

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FRATERNIDADE SACERDOTAL JESUS CARITAS

ASSEMBLÉIA GERAL

São Paulo – Brasil de 06 a 22 de novembro de 2006

Günther Lendbradl

 

TEMA DA ASSEMBLÉIA

“Re-inventar com a força do Espírito em nossas culturas e Igrejas o testemunho de Ir. Carlos”.

 

Mariano me pediu para fazer uma releitura do nosso diretório. Desde o início eu me fiz as seguintes perguntas: (1) Re-leitura quer dizer o que? (2) A re-leitura serve para que? (3) A re-leitura se dirige a quem? (4) Como fazer esta re-leitura?

 

1.      O que quer dizer re-leitura do nosso diretório?

Por que não revisão ou avaliação? Existe uma diferença entre re-visão, avaliação e re-leitura? Seria correto dizer: Uma re-leitura deve apontar omissões, esclarecer formulações duvidosas, fornecer interpretações mais aprofundadas? A revisão se faz para mudar, modificar o diretório? A re-leitura se faz para perceber se a vida das fraternidades ainda está em consonância com o diretório, ou vice versa se o diretório é capaz de inspirar a vida das fraternidades? A re-leitura é do diretório ou da Fraternidade? Por fim: Re-leitura seria simplesmente ler de novo, depois de algum tempo e com carinho o nosso diretório para lembrar toda a riqueza que esse texto contém?  

2.      A re-leitura do nosso diretório serve para que?

Li e reli o nosso diretório. Só posso dizer que a meu ver, o diretório está muito bem feito e eu posso facilmente identificar-me com sua proposta, porque é isso que quero viver, mas na prática nem sempre eu consigo. As fraternidades nem sempre estão conseguindo viver o que o diretório propõe. O nosso diretório elaborado e aprovado em 1976 na Assembléia de Montefiolo começa com a história dos ossos secos do profeta Ezequiel (Ez. 37.5). Esta história é significativa, porque nos chama atenção de que sempre somos tentados a acomodar-nos. Será que os nossos ossos secaram? Mas mesmo que estejam mortos, o Espírito pode reavivar e reanimar os ossos secos. Sempre precisamos de um novo sopro do Espírito. Como fazer para comunicar o Espírito, para re-animar? Como suscitar o Espírito? O Espírito sopra onde quer. Ele soprou muito forte no início da Fraternidade. Por isso é bom voltar às fontes, recordar as nossas origens, ter a coragem de converter-se, ter a vontade de ser novamente autêntico.

Mas me parece que uma re-leitura tem outro motivo que se impõe. Depois de 30 anos de Montefiolo o mundo mudou, não é mais o mesmo, a história caminhou, vivemos em um novo contexto, com novos parâmetros da Igreja e do mundo. Precisamos atualizar a nossa espiritualidade, captar e nos conscientizar dos novos desafios e descobrir como viver o carisma do Ir. Carlos e da Fraternidade hoje num tempo e num espaço geográfico mudado. A re-leitura poderia ser uma contribuição para ajudar a Fraternidade a ser fiel ao seu carisma, mas que ao mesmo tempo ajude para ter a liberdade e a coragem de trilhar novos caminhos.

 

3.      A re-leitura se dirige a quem? Dirige-se aos presbíteros da fraternidade.

Quem somos nós?

Mesmo pertencendo à Fraternidade, optamos por continuar presbíteros diocesanos, inseridos no presbitério. Não nos consideramos presbíteros religiosos ou pertencentes a um instituto secular. Encontramo-nos inseridos numa diocese e numa estrutura eclesiástica, que estamos carregando e mantendo. Na maioria das vezes trabalhamos em paróquias. Porque somos cada vez um número menor, temos paróquias cada vez maiores e muitos se sentem sobrecarregados. Somos uma raça em extinção? Como presbíteros seculares nós vivemos no mundo. Experimentamos que este mundo é um mundo cada vez mais secularizado. E este mundo marcou a nossa fé. A nossa fé não é mais a fé pura de uma criança e nem mais a fé que aprendemos no seminário, no tempo da nossa formação.

 

Para a maioria do povo somos considerados apenas “sacerdotes”. Presbítero serve para celebrar missa. O seu lugar é a sacristia. O Concílio Vaticano II diz que o Povo de Deus e também nós presbíteros participamos das três missões (múnera) de Cristo, da sua missão profética, sacerdotal e pastoral/régia. Como presbíteros somos Profetas, Sacerdotes e Reis/Pastores. A pergunta é: exercemos as três missões que recebemos na nossa ordenação ou sentimo-nos apenas sacerdotes, ministros do sagrado, ligados ao culto? É tarefa de o presbítero coordenar a comunidade, descobrir as várias vocações e ministérios que o Espírito nela suscitar e zelar para que o Povo de Deus cumpra a sua missão.

 

No entanto mesmo sendo presbíteros diocesanos nos consideramos presbíteros da Fraternidade Sacerdotal Jesus Caritas. Temos uma espiritualidade própria. Tentando descrever a nossa espiritualidade poderíamos dizer: Queremos seguir Jesus Cristo como presbíteros diocesanos. Mas como seguir Jesus Cristo? É possível seguir Jesus Cristo de mil maneiras. Entre as muitas possibilidades nós escolhemos seguir Jesus Cristo à maneira de Ir. Carlos e da Fraternidade. Ele se tornou o nosso guia. Por que escolhemos este caminho e não um outro? Aí nós tocamos no mistério do nosso chamado. Creio que foi o Espírito de Deus que nos fez descobrir e gostar de Ir. Carlos, conhecer os irmãos da Fraternidade Sacerdotal, sentir-nos parte da grande família espiritual do Ir. Carlos. Algo nos cativou; o testemunho de uma vida autêntica, na pobreza e no abandono, os caminhos novos na Igreja, a convivência fraterna, o desejo de levar uma vida contemplativa. Formou-se em nós uma espiritualidade. Começamos a cultivá-la, nos sentimos acolhidos e em sintonia com outros que seguiram o mesmo caminho. Identificamo-nos. Optamos e nos engajamos. Descobrimos a nossa espiritualidade. Ir. Carlos, a Fraternidade Sacerdotal se tornou a inspiração de nossa vida, nos motivou e nos ajudou no seguimento de Jesus Cristo. 

 

4.      Como fazer a re-leitura?

Fazê-la em mutirão. A re-leitura não pode ser feita apenas por uma pessoa. O “vieux frère” disse: “A Fraternidade é a vida dos padres”. Como é a vida dos padres? A vida dos padres deveria ser o ponto de partida e ao mesmo tempo o ponto de chegada. O ponto de partida, porque aí tocamos a realidade de cada um de nós. O ponto de chegada, porque com a re-leitura pretendemos re-animar e dar impulsos para ajudar os membros da Fraternidade na vivência e no testemunho do Evangelho de Jesus Cristo em vista do povo. Penso que a re-leitura deveria ser um apanhado daquilo que as fraternidades pensam e vivem. Para conhecer a vida dos presbíteros é preciso como ponto de partida um esforço de ver, numa atitude contemplativa. Quais as experiências, as alegrias, as dificuldades, os desafios e as perguntas que os presbíteros se fazem, onde eles percebem o novo? Um segundo passo poderia ser uma partilha daquilo que vimos com a participação de todos,

Para conhecer o carisma da Fraternidade devemos (1) conhecer e meditar sempre de novo a vida e o testemunho do Ir. Carlos (2) conhecer e contemplar a vida dos presbíteros que pertencem à Fraternidade. É uma tarefa permanente. Como fazer isto? Como fazer para captar toda esta riqueza vivida?

 

O NOSSO DIRETÓRIO

 

A minha re-leitura é do Diretório de Montefiolo, não do Estatuto Canônico.

 

1.      NOME

Fraternidade Sacerdotal Jesus Caritas

Nas línguas portuguesa e espanhola existe uma diferença entre: sacerdote e presbítero. Sacerdos = dono do sagrado, ligado ao culto, à liturgia. Presbyteros = Pessoa de certa idade, maturidade, principalmente na fé, membro de um Senado (Presbyterorum Ordinis 7).

Nas línguas inglesa, francesa e alemã só existe o termo priest, prêtre, Priester que vem do grego presbyteros.

Jesus não se considerou e nem foi considerado por ninguém como sacerdote. Ele era do povo (leigo) tido como profeta. Ele não veio de uma família sacerdotal, ele não pertencia à tribo dos sacerdotes, nunca ofereceu sacrifícios no templo de Jerusalém. Ao contrário ele questionou a pratica dos sacerdotes, vivia em conflito crescente com eles, e foram os sacerdotes e o sumo sacerdote que abriram o processo para condenar Jesus à morte. Igualmente os primeiros discípulos nunca foram considerados sacerdotes, mas apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e doutores (1 Coríntios. 12.29 e Efésios 4,11). Mesmo na carta aos Hebreus que atribui somente a Jesus o título “sumo sacerdote”, os responsáveis pela comunidade são chamados apenas “dirigentes”. (Hebreus 13.7 e17)

 

2.      ESPÍRITO E FINALIDADE

Por causa de Jesus e do Evangelho

 

Jesus. Que Jesus? Quem é Jesus para nós?

 

É a síntese de quem é Jesus

 

Evangelho

Ir. Carlos quis gritar o Evangelho com a vida. O evangelho em primeiro lugar é para ser vivido. Para isto Ir. Carlos estudou e meditou o Evangelho. Ele recomenda: “Ler e re-ler sem cessar o santo evangelho, para ter sempre diante do espírito os atos, as palavras, os pensamentos de Jesus a fim de pensar, falar, agir como Jesus. Voltemos ao evangelho; se não vivermos o evangelho Jesus não vive em nós”. Um exercício para poder gritar o evangelho com a vida, é praticar a leitura orante. Além disso, quem ama a Palavra de Deus terá vontade de estudá-la cada vez mais. Sempre nós lemos o evangelho com os óculos que temos nos nossos olhos. Isto quer dizer que lemos o evangelho a partir do lugar social e do nosso engajamento e apenas descobriremos nele o que já está no nosso horizonte. Por isso para descobrir toda a riqueza da palavra de Deus é necessário ler o evangelho também em mutirão junto com os irmãos e colocar-se a par do que a exegese descobriu. Levar em conta a dimensão histórica de Jesus. O conteúdo do evangelho de Jesus a sua boa nova é o anúncio do Reino de Deus que está próximo, às portas.

 

Para sermos irmãos de todos, de todas as pessoas.

SER IRMÃO DE TODOS significa acolher cada pessoa que vem ao meu encontro com amor, alegria e delicadeza, ver em cada pessoa um irmão, uma irmã, acolher de maneira especial aqueles que Jesus considera seus irmãos e irmãs e com os quais ele se identifica. Mateus 25.31.


 

 

Abandonando-nos ao Pai

Abandonar-se ao Pai não como escravo, mas como parceiro. Ele desperta o meu ouvido para que eu ouça como discípulo (Is.50.4). Abandonar-se ao Pai é a resposta total ao seu amor gratuito. Abandonar-se ao Pai quer dizer não mais viver para si mesmo, mas para ele. “Se o grão de trigo caído na terra não morrer fica só, mas se morrer produzirá muito fruto” (João 12.24). Abandonar-se ao Pai significa não mais ter medo dos inimigos do Reino, principalmente não ter mais medo do último inimigo a ser vencido, a morte. Quem venceu o medo e na medida em que o venceu, tornou-se uma pessoa livre.

 

3.      VIVER NAS ENCRUZILHADAS DO MUNDO E DA IGREJA

Nosso mundo – os desafios

Nosso mundo – marcado pela economia

Nossa cultura

Já que o tema da Assembléia é “Re-inventar com a força do Espírito em nossas culturas e Igrejas o testemunho de Ir. Carlos”, este item merece destaque.

Principalmente nos países da Europa e dos Estados Unidos, mas mais e mais em todos os países do mundo existe o fenômeno da imigração. Os imigrantes, grupos expressivos e cada vez maiores em número trazem consigo a sua língua, sua religião, sua cultura. Por causa dos seus costumes e sua maneira de vida diferente, eles interferem na cultura dos países de imigração e na convivência com as pessoas desses países. Quem quer viver o grande desafio da fraternidade universal precisa aprender dialogar, compreender, conviver para evitar os quanto mais possíveis choques.  

No Brasil em 1960 80% da população vivia no campo. Hoje em 2006 80% da          população está vivendo na cidade. A cidade é atraente, pluralista, ela oferece muitas possibilidades, ela estimula as pessoas a tomarem decisões, ela torna a pessoa autônoma. Ao mesmo tempo ela é responsável pelo anonimato e pela a-nomia da convivência entre pessoas. Não existe mais controle social.  Na cidade as pessoas se sentem livres, mas também isoladas.

O Brasil hoje é um país violento. Violência na família, violência na escola, violência no trânsito, violência em roubos, assaltos, criminalidade crescente na cidade, violência contra a mulher, desrespeito aos direitos humanos, tráfico de drogas, violência contra o meio ambiente e a natureza.

A teoria de René Girard diz que no coração humano está enraizado o que ele chama “o desejo mimético”. Este desejo mimético cria rivalidade, exclusão, violência, guerra e destruição. A superação do conflito se dá, quando todos se unem ao redor de um bode expiatório, e para jogar nele toda a culpa. Descarregando sobre esta vítima toda a violência, acontece união. Todas as culturas, e os sistemas sociais obedeceriam segundo Girard, a estas tendências.  No entanto o ser humano não pode ser reduzido a mero desejo mimético. Existe a possibilidade de superar esta tendência. A mensagem bíblica, o evangelho vivido no seguimento de Jesus, vítima inocente, abre o caminho para a paz.  

Todo ser humano tem um anseio de ser livre, viver sem fronteiras. A humanidade conquistou e defende como valor a liberdade da pessoa humana, liberdade de religião, de imprensa, de manifestar a sua opinião, de ir e vir. O desafio é entender que liberdade não quer dizer fazer tudo o que eu quero. Livre é quem é capaz de aceitar limites. Sem liberdade não há convivência.

A sociedade em que vivemos é uma sociedade altamente marcada pela ciência e tecnologia. As descobertas e invenções tornaram a vida bastante agradável, a comunicação em todas as áreas da vida, desde rádio, TV, telefone, celular, computador, carros. As pesquisas na área da saúde, os remédios e muitas outras coisas conseguiram de  um lado elevar bastante a qualidade de vida, mas por outro lado a tornaram mais complicada. A ciência e a tecnologia reclamam uma ética. Vivemos mais e mais num mundo que nós humanos construímos. Esse mundo dita as normas da nossa convivência. Ao passo que a natureza, o mundo que Deus criou, está cada vez mais distante e menos respeitada.

No nosso planeta vivem atualmente mais de seis bilhões de pessoas. Todos querem alimentar-se, vestir-se, ter casa, ter terra. Estamos saqueando o nosso planeta terra. Somos responsáveis pelo clima alterado, pelos alimentos envenenados. Precisamos aprender a distribuir com justiça entre todos os recursos disponíveis, o petróleo, a água, o ar, as matas.

A fé cristã tem uma dimensão política. A política é a arte de possibilitar a convivência entre pessoas, grupos e povos. No entanto, cada vez mais a política é considerada como uma luta pelo poder. E cada vez menos o poder é exercido em favor do bem comum. Na vida pública existem muitos interesses particulares. A política é dominada pela economia neoliberal e globalizada que reclama um estado mínimo.

Não apenas na convivência internacional, mas mais e mais na convivência nacional aparece o abismo entre as elites e as massas. Os salários dos executivos e dos homens públicos (deputados, juízes) cada vez mais altos, privilégios cada vez maiores. Por outro lado o desemprego, a perda dos direitos conquistados pelos trabalhadores, a falta de possibilidades iguais para a educação, para a saúde. O tráfego de seres humanos, de mulheres para a prostituição, de crianças para doadores de órgãos. É urgente reivindicar e lutar pela igualdade de todos diante da lei.

 

Nossa Igreja – Povo de Deus

Ir. Carlos era missionário. No entanto ele foi capaz de escrever: “Anunciar Jesus aos Tuaregues é coisa que não acredito que Jesus queira, nem de mim nem de qualquer outro. Seria o modo de retardar e não de apressar sua conversão” (Carta a Mons. Guerin, 6 de março de 1908). Ele não estava preocupado em batizar um número o quanto maior de pessoas ou para convertê-las para sua religião. A sua concepção de missão foi uma missão por inserção. Antes de iniciar o anúncio explícito da palavra, ele quis aprender dos outros. Ele estudou a língua, os costumes, tentou tornar-se amigo, ser aceito pelos tuaregues. Ele estava preocupado como melhorar a agricultura e a criação do rebanho, como melhorar a qualidade de vida. Quis gritar o evangelho pelo testemunho e pelo exemplo. Foi um apostolado de bondade, de amizade e de carinho para com todos por causa do seu amor para com Jesus e a sua religião. Ele quis ser missionário puramente pela presença. Ele quis gritar o evangelho com a vida. Ele sonhou com missionários leigos, famílias cristãs, inseridas no meio dos tuaregues, exercendo a sua profissão, ensinando como melhorar a vida. Ir. Carlos está na origem das pequenas fraternidades e das comunidades eclesiais de base.

 

4.      NO ESPÍRITO DO IRMÃO CARLOS

Para entender a vida de Ir. Carlos é importante levar em consideração a influência que o islã exerceu sobre ele. Durante a expedição a Marrocos, ele ainda incrédulo, fica impressionado com a fé dos muçulmanos e não esconde sua admiração. Logo depois de sua ordenação ele vai para Argélia e vive até a sua morte no meio dos muçulmanos. O seu projeto era missionário. 

A busca do Absoluto de Deus

Contra o monoteísmo hoje existe uma suspeita e um questionamento e até uma acusação de gerar intolerância e fanatismo. Este questionamento é uma reação provocada por grupos fundamentalistas, sejam eles judeus cristãos ou muçulmanos que em nome do Deus de sua fé praticam atos de violência porque não podem admitir outras opiniões.

Mas a questão é: Que Deus nós acreditamos. O Deus dos judeus é um Deus libertador. “Eu sou Iahweh, teu Deus, que te fez sair da terra do Egito, da casa da escravidão. Não terás outros deuses diante de mim” (Ex.20.1). Parece que Deus tem um adversário e existe uma luta entre Iahweh e os falsos deuses. Iahweh está lutando contra o mal. O Deus dos cristãos, é Trindade, é comunidade, é amor, Deus não é Deus sem as criaturas, o homem está no centro de Trindade. Deus escolhe um povo, inicia uma história e constantemente intervém na história deste povo, o Deus dos cristãos se relaciona constantemente e está presente na história, ele é transcendente, mas também imanente. O Deus dos cristãos não é um Deus inacessível, solidão, não é pura transcendência.

A fé no “Absoluto de Deus” necessariamente leva a intolerância? A fé no absoluto de Deus não poderia ajudar muito para dar à vida um rumo certo, sair da indiferença e do tédio de uma vida sem sentido?

Ter Deus como Absoluto quer dizer amar Deus. O shemá Israel de Deuteronômio 6.4, repetido no Evangelho de Marcos (e paralelos), ensina amar. “Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, de toda a alma, de todo o entendimento e com todas as tuas forças. Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. (Mc.12.29ss). Deus se torna meu Absoluto se ele é experimentado na sua glória e maravilha, face a face, sem mediações, Deus, ele mesmo, não uma representação sua, um sinal ou símbolo seu.

Ir. Carlos quando ainda descrente, ficou impressionado ao ver como os muçulmanos praticavam a sua fé. Depois de sua conversão Ir. Carlos escreve: “Quando comecei a acreditar que existia um Deus, compreendi que não poderia viver senão para ele”. Para Ir. Carlos Deus se tornou absoluto. A fé transformou a sua vida letárgica e sem rumo numa vida cheia de sentido, de perspectivas e de esperança. Começou a aventura da dança com o parceiro invisível. Ir. Carlos nunca se tornou fanático ou intolerante, ao contrário a fé no Absoluto do Deus e no seu filho Jesus Cristo o tornou muito humano, um homem de amor.

 

A Fraternidade Universal – Amor solidário

O sonho de Ir. Carlos era ser irmão de todos. Esse sonho não era uma abstração, mas algo muito concreto. Amor universal é ir até os mais afastados e esquecidos, não deixar ninguém sozinho. O caminho para ser irmão de todos é tratar com amizade e fraternidade cada pessoa que cruza o meu caminho, seja quem for. Se no fim da minha vida eu posso afirmar que tratei todos como irmãos eu fui irmão de todos. A fraternidade universal se constrói no dia a dia, na acolhida de todos, seja quem for que venha ao meu encontro. O centro já não sou mais eu, mas o outro. Além disso, o caminho para construir a fraternidade universal passa por estruturas e organizações como a educação para a solidariedade, a amizade. Um caminho para se viver a fraternidade universal é viver em pequenas fraternidades. Estas pequenas fraternidades através do seu testemunho de vida podem tornar-se um sinal da fraternidade universal.

 

Os Conselhos evangélicos

Em vez de falar em votos preferimos a expressão “conselhos evangélicos” porque o próprio evangelho recomenda  este estilo de vida. Viver segundo os conselhos evangélicos significa superar o eu, vencer o desejo de poder, de ter e do prazer, ir ao encontro do outro. Só será capaz quem quer amar. É o próprio Espírito Santo que suscita o desejo e a vontade de querer viver assim. Os que vivem os conselhos evangélicos são chamados “bem-aventurados” e se tornam pessoas inteiramente livres. Eles não sentem falta de nada.

  1. Viver como pobre

Discernem-se três estágios: viver para os pobres, viver com eles e viver como eles. O motivo porque viver como pobre não pode ser o desprezo pelas coisas, mas é antes de tudo uma questão de amor e de solidariedade. Ir. Carlos: “Eu não quero viajar pela vida na primeira classe, enquanto Jesus viajou na terceira. Eu não posso amar assim. Como depressa será pobre quem te ama de todo coração porque não agüentará ser mais rico do que o amado”. Mas viver como pobre não apenas significa se desfazer dos bens materiais. A pobreza espiritual é mais do que isto. Significa tornar o coração totalmente vazio. Deus então pode tomar conta dele e enchê-lo com seu amor. Um coração pobre assim, será capaz de amar a todos.

  1. Viver como solteiro por causa do Reino dos Céus

Ser solteiro não por desprezo ao casamento, nem por causa de Jesus, mas por causa de uma causa: do Reino. Quem se faz eunuco, aceita ser impotente. Ele quer superar a exclusividade no relacionamento para com as pessoas. Nem todos são capazes de compreender esta palavra, mas só aquele a quem é concedido. Quem tiver capacidade para compreender, compreenda. (Mt.19.11s).

  1. Ser obediente.

Ir. Carlos: “A obediência é o último, o mais alto e o mais perfeito grau do amor, aquele amor em que alguém deixa de existir pessoalmente, em que a gente se aniquila, em que se morre como Jesus morreu sobre a cruz”. Deus quer o aniquilamento de uma pessoa? Creio que não. Mas na obediência eu por mim mesmo, porque quero, abro mão dos meus desejos, idéias, planos e objetivos, do meu eu. Porque quero fazer a vontade do Pai. “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou” (João 4.34).

 

5.      NOSSOS CAMINHOS – OS MEIOS DA FRATERNIDADE

 

A Fraternidade – o dia mensal da fraternidade

A Fraternidade Sacerdotal Jesus Caritas só existe nas pequenas fraternidades locais. Sem encontrar-se nas pequenas fraternidades não há Fraternidade. Lá acontece o desafio de viver o evangelho na prática, no dia a dia. O encontro com a pessoa do irmão enriquece-me, me corrige, me amadurece e é necessário para eu encontrar a minha identidade. A fraternidade é um grupo de irmãos e de amigos. Irmãos não se escolhem, se recebem. Amigos e a amizade é um dom e é uma tarefa, que é possível construir e cultivar.

 

Em busca de uma Oração Contemplativa

Ser contemplativo não depende de nós. É um dom de Deus que nos motiva e desperta em nós o desejo pela oração. Ser contemplativo é olhar com os olhos de Deus. Quem se sente atraído para uma vida contemplativa saiba que tem diante de si um caminho árduo. Para “Subir ao monte Carmelo” ele tem que ser capaz de agüentar e de vencer “A noite escura”. Para isto ele precisa aprender autodomínio, perseverança e fidelidade. Os medíocres não chegam. Na medida em que alguém percorre o caminho da contemplação tornar-se-á uma pessoa livre, integrada, em paz consigo mesmo, com os outros e com toda a criação. Tudo isso é possível porque ele se sente em paz com Deus, se sente amado pelo Pai. O contemplativo encontrou o centro de sua vida em Deus. Ele não procura mais realizar seus projetos pessoais, mas se pergunta como realizar a vontade de Deus. Ele vive e tem um só desejo: ”Pai, que eles te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro” (João 17.3). Conhecer a Deus em sua glória muda por completo a vida do contemplativo, sua maneira de olhar, de viver e de agir. O seu alimento de agora em diante será fazer a vontade do Pai.

 

A Oração (Adoração) eucarística diária

Nas fraternidades se perguntou e se pergunta o sentido da oração eucarística. Nossa compreensão da eucaristia é dinâmica e não estática. Eucaristia é celebração, é ação. Adorar a hóstia consagrada tem sentido? É apenas uma devoção ou algo a mais? Surgiu também a pergunta: Nós queremos adorar a eucaristia ou adorar Deus diante da eucaristia?

 

O Dia mensal do deserto

É preciso retirar-se ao deserto porque lá está Deus. Abraão, Moisés, o povo de Deus durante quarenta anos fizeram a experiência do deserto. O deserto purifica, faz escutar no silêncio a voz do Senhor. João Batista vem do deserto. Jesus é impelido pelo Espírito para o deserto.

O deserto é o lugar da tentação, da prova, mas também da volta e da experiência e do reencontro com Deus. “Eis que eu mesmo a seduzirei conduzi-la-ei ao deserto e falar-lhe-ei ao coração” (Oséias 2.16). A fidelidade ao dia do deserto é importante para o encontro com Deus vivo. É o lugar da escuta, é caminho da contemplação.

 

Os Meios pobres

“Jesus é o mestre do impossível”. Com esta afirmação Ir. Carlos não quer dizer que Jesus está acima das leis da natureza, mas que os caminhos de Jesus ultrapassam a nossa compreensão. “Meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são os meus caminhos” (Is.55.8). Jesus prefere caminhos simples e pobres, diferentes da nossa imaginação. Ele envia os discípulos em missão desprotegidos, sem bastão, sem alforje, nem pão, nem dinheiro e sem duas túnicas. Só quem se despoja dos meios humanos pode experimentar a ajuda de Deus.

 

A Revisão de vida

A revisão de vida é como que o sacramento de uma fraternidade. Sem revisão de vida não há fraternidade verdadeira. Se uma fraternidade não consegue avançar na revisão de vida, isto é um sinal de que ainda não chegou a ser fraternidade verdadeira. Esta pressupõe transparência entre os irmãos. A falta de transparência vem da desconfiança e do medo diante dos outros. No amor não há mais medo. A revisão de vida só funciona na medida da confiança que há entre os irmãos. Só é possível de expor a sua vida diante dos outros quando os irmãos sentem que são aceitos do jeito como são. Revisão de vida não pode ser cobrança do outro. A revisão de vida é um processo, só é possível depois de um período de convivência quando os irmãos perderam a desconfiança e o medo um diante do outro.

 

O Mês de Nazaré

O mês de Nazaré, de duração não menos do que 30 dias, é experimentado como tempo forte e como graça. Além do retiro, ele prepara para ser fiel: à oração diante da eucaristia, à revisão de vida e ao dia mensal do deserto. A participação é em vista do engajamento na Fraternidade.

 

O Engajamento

Nas fraternidades já foi discutido o sentido de um engajamento. Os presbíteros ordenados ainda têm necessidade de fazer um engajamento? Sim, porque na ordenação se tornaram presbíteros diocesanos, mas não já e ao mesmo tempo membros da Fraternidade Sacerdotal Jesus Caritas. Ser membro da Fraternidade pede um engajamento. Sem compromisso não existe fraternidade, não existe estabilidade e caminhada. Quem quer pertencer a uma fraternidade precisa manifestar o seu desejo, mas também os membros de uma fraternidade precisam manifestar a sua disposição de acolher um novo irmão. O engajamento é um pacto mutuo uma aliança. Para tornar-se membro é necessário percorrer um caminho. Uma vez que Jesus estava convicto “Ele tomou resolutamente o caminho para Jerusalém”. (Lc.9.1)

Discernimos vários estágios.

 

Nossa identidade de presbíteros da Fraternidade – O nosso estilo de vida

  1. Viver no mundo, “au coeur des masses”, não se esconder atrás da instituição eclesiástica.
  2. Fazer suas as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem (GS1).
  3. Ter feito a opção pelos pobres e solidarizar-se com eles.
  4. Traduzir e assumir esta opção no trabalho pastoral
  5. Renunciar aos privilégios.
  6. Viver em tudo a simplicidade, na maneira de comer, de vestir, de morar,
  7. Não apenas celebrar eucaristia, mas vivenciá-la na entrega diária da vida a Deus e aos irmãos.
  8. Partilhar e repartir o pão eucarístico e o pão de cada dia.
  9. Ser irmão, ser fraterno e acolher com amor e amizade os que vêm ao nosso encontro.
  10. Ter tempo para Deus. Ser generoso na oração, na leitura da palavra de Deus. Oferecer ao Pai os melhores momentos do dia.
  11. Almejar uma vida contemplativa.
  12. Gritar o evangelho com a vida.
  13. Dar testemunho da fé numa atitude missionária
  14. Trabalhar para que a fraternidade universal aconteça.
  15. Tornar-se criança diante de Deus, ter um coração de criança.

 

6.      COM UM MÍNIMO DE ESTRUTURAS

 

7.      OS RESPONSÁVEIS E SUAS FUNÇÕES

 

 

 


 

 



 


 


 

[1][1] Estão sendo apresentados aqui aspectos da síntese das colaborações da Igreja do Brasil à Conferência de Aparecida. É o resultado das respostas dadas, em nível diocesano, recolhidas pelos Regionais da CNBB. Também contribuições dos Institutos de Teologia, Congregações religiosas, Movimentos eclesiais e Organismos de pastoral.

[2][2] A preparação para o segundo turno da reeleição de Lula para presidente da República, após o envio destas contribuições,  reanimou os movimentos sociais com a esperança de um passo novo no governo na perspectiva dos pobres. O governo do Partido dos Trabalhadores(PT) criara muita esperança mas, aos poucos, também decepção.

[3][3] Entre tantos estudos publicados na preparação da 5ª. Conferência, especial atenção para dois textos que  nos falam das opções históricas das Conferências anteriores: do Padre Juan Carlos Scanonne, teólogo argentino, apresentada no Congresso de Doutrina Social da Igreja, organizado pelo CELAM, setembro/06,  sobre “A contribuição do Magistério latino-americano à Doutrina Social da Igreja”. Também o artigo do Padre João Batista Libânio, jesuíta brasileiro  “A caminho da V Conferencia de Aparecida”, revista Perspectiva teológica, maio-agosto, 2006.

[4][4] Síntese das aspirações das comunidades católicas do Brasil. Não se trata de documento oficial da Hierarquia (não é consenso entre os bispos)

[5]“A estabilização da moeda se tornara o ponto focal no pensamento político dos povos e governos; a restauração do padrão-ouro era o objetivo supremo de todo o esforço organizado da área econômica. O pagamento dos empréstimos externos e o retorno às moedas estáveis eram reconhecidos como as pedras de toque da racionalidade política. Nenhum sofrimento particular, nenhuma violação de soberania era considerada um sacrifício demasiado grande para a recuperação da integridade monetária. As provações dos desempregados, sem emprego devido à deflação, a demissão de funcionários públicos, afastados sem uma pensão, até mesmo o abandono dos direitos nacionais e a perda das liberdades constitucionais eram considerados um preço justo a pagar pelo cumprimento da exigência de orçamentos estáveis e moedas sólidas, as prioridadesestes a priori do liberalismo econômico.” Karl Polany – “A grande transformação: as origens de nossa época;” Rio de Janeiro, Campus, pág. 147 (a obra foi publicada originalmente em 1944). Cf. “Sessão Reprise”, LAFIS – Pesquisa e Investimento em Ações na América Latina, Carta Capital, 13/10/99, pág. 66 – 70. Vale a pena ler toda a matéria. Eis alguns trechos principais. “A semelhança entre 20 e 90 faz com que o trabalho  de Polany, publicado em 1944, caia como uma luva naà atual situação. ...“Após o crash de 29, os EUA elevaram os juros e derrubaram o dólar, devastando os mercados emergentes da Europa Central e América Latina. ... Polany enxergou bem melhor que os marxistas os efeitos terríveis do progresso e do mercado sobre as culturas tradicionais e o meio ambiente.

 Cf ainda a este respeito Rubens Ricupero, “Mudança de discurso”, Folha de São Paulo, 3/10/99, pág.2-2: “Alguns meses após a queda do muro de Berlim, a Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e Desenvolvimento (Unctad) predizia que a década de 90 iria se caracterizar pela freqüência, a intensidade e o poder destrutivo das crises monetárias e financeiras. 

[6] Isabel Clemente, “Crise eleva desigualdade no mundo”, Folha de São Paulo, 21/9/99, pág. 2-1.

[7] Mílton Santos, “A normalidade da crise”, Folha de São Paulo, 26/9/1999, Cad. Mais!, pág. 5-3.

[8]Clóvis Rossi, “ONU busca novo paradigma da economia”, Folha de São Paulo, 12/2/00, pág. 1-6 citando o então Secretário-Geral  da UNCTAD, Rubens Ricupero.

[9] Contribuíram para esta análise Pe. Bernard Lestienne SJ, Daniel Seidel, Gilberto Souza, Pe. José Ernanne Pinheiro, Lúcia Avelar e Pe. Thierry Linard SJ, Pedro A. Ribeiro de Oliveira. Ela foi apresentada na 61ª Reunião Ordinária do Conselho Permanente Brasília - DF, 24 a 27 de Outubro de 2006.

[10]Mílton Santos, “Brasil na encruzilhada – Entre a submissão ao pensamento único e um autêntico projeto nacional”, Carta Capital, 12/4/00, pág. 25, n.º 4.

 

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